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REUTERS/Yves Herman

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Alívio na Holanda

Mas outros grupos estão prontos para prolongar o combate perdido de Geert Wilders

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Gilles Lapouge, Correspondente / Paris

17 Março 2017 | 05h00

Um dia depois das eleições legislativas na Holanda, o primeiro-ministro vem recebendo as homenagens e os agradecimentos de toda a Europa. Mark Rutte, líder do VVD – partido popular liberal e democrata, resistiu aos violentos ataques do seu rival Geert Wilders, que, apoiado pelo seu Partido pela Liberdade, ameaçava lançar o país numa loucura xenofóbica e antiárabe mortífera, uma cruzada de ódio.

Em Berlim e Roma, Paris e Bruxelas, esperava-se o pior. Após a surpreendente vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e o Brexit britânico, uma vitória de Wilders atingiria a Europa em sua própria estrutura e seria indício do desmantelamento do edifício – a União Europeia.

Pior ainda: a histeria contra o estrangeiro, contra os imigrantes, que já contamina o leste da Europa – Polônia, Hungria e outros – se instalaria na Europa ocidental. E como dentro de algumas semanas os franceses votarão no primeiro turno das eleições presidenciais que podem colocar na liderança o partido fascista de Marine Le Pen, a peste pode se espalhar.

Uma virada fascista da Holanda se revestiria de uma importância simbólica. Ao longo da sua história, esse país tem sido um modelo de tolerância: o acolhimento do outro, do estrangeiro, respeito às liberdades e às crenças, liberdade de pensamento, liberdade de amar.

Quando o antissemitismo tomou conta da Europa clássica, a Holanda foi a salvação dos judeus perseguidos – o filósofo judeu de origem portuguesa Baruch de Espinosa refugiou-se em Amsterdã.

O Brasil também pode contar alguma coisa: entre 1624 e 1654, os holandeses instalados no Recife sob o comando de Maurício de Nassau acolheram judeus perseguidos na Europa, fato que contribuiu para o florescimento cultural, científico e filosófico daquela cidade e mesmo do País. E parece-me que a primeira sinagoga do continente americano foi a do Recife.

O fato de um país como a Holanda, graças a Wilders, repentinamente descambar para o racismo antiárabe seria um sinal inquietante. Entendemos por que Angela Merkel, François Hollande, Jean Claude Juncker e todos os dirigentes do Velho Continente respiraram melhor na manhã desta quinta-feira.

Mas é preciso não descuidar: o partido de Wilders não conseguiu maioria, mas não desapareceu. O VVD de Rutte reuniu 21,2% dos votos e conquistou 33 assentos no Parlamento, mas a agremiação de Wilders obteve 13,1% dos votos e conseguiu eleger 20 deputados que se farão ouvir e continuarão a propagar seus venenos.

Além da Holanda, outros grupos estão prontos para prolongar o combate perdido de Wilders. Em primeiro lugar Marine Le Pen, que continua na dianteira nas pesquisas de intenção de voto para as próximas eleições presidenciais francesas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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