South Korea Defense Ministry via AP
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Ameaças de líderes precisam ser levadas a sério, diz diplomata brasileiro em Pyongyang

Segundo Cleiton Schenkel, o clima na Coreia do Norte não mudou muito depois do teste nuclear de domingo, já que ‘a tensão no país segue ciclos e o nível atual já estava alto antes’

Entrevista com

Cleiton Schenkel, encarregado de negócios da embaixada brasileira em Pyongyang

Célia Froufe, enviada especial / Pequim, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 12h37

PEQUIM - Quando chefes de Estado fazem ameaças de ataque, elas têm de ser levadas a sério. A recomendação foi feita pelo encarregado de negócios da embaixada brasileira em Pyongyang, Cleiton Schenkel.

Ele respondeu às perguntas do Broadcast / Estadão pouco antes de deixar Pequim rumo à Coreia do Norte, onde representa o País. Na capital chinesa, se juntou à comitiva governamental brasileira que foi até a cidade mais conhecida da segunda economia do mundo em busca de investimentos para o Brasil.

Assim que desembarcou em solo norte-coreano, Schenkel foi novamente contatado e disse que o clima na capital é de normalidade. "Não há nada de diferente visível", enfatizou. O clima em Pyongyang, conforme recebeu de relatos de colegas que seguiam ao país, não mudou muito depois de domingo, quando a Coreia do Norte realizou o seu mais potente teste nuclear até o momento. "A tensão no país segue ciclos e o nível atual já estava alto antes do teste", relatou.

Reconhecido como "corajoso" pelo governo brasileiro, Schenkel avalia que é pouco provável que a retórica bélica entre EUA e Coreia do Norte se converta em realidade. O principal perigo, segundo ele, é de erro de cálculo em uma das escaladas de ameaças ou provocações, o que pode acabar deflagrando um conflito na região. Confira abaixo a entrevista.

No domingo 3, a Coreia do Norte voltou a assustar o mundo com mais um teste nuclear. O senhor estava na China. Como recebeu a notícia? Já esperava mais uma ofensiva?

De fato, há tempos os analistas vinham assinalando a iminência de um novo teste. O principal motivo para essa estimativa são as imagens de satélite obtidas por instituições que monitoram o país. Elas vinham mostrando movimentos de preparação nos locais de teste.

O senhor recebeu relatos de quem está no país?

Sim, somos uma comunidade diplomática pequena e com bastante interação. Como acontece normalmente depois de fatos significativos como este, fiz contato com alguns colegas para ouvir suas percepções.

Que clima espera encontrar na Coreia do Norte em seu retorno?

O clima, segundo relataram os colegas com quem falei, não mudou muito. (A informação foi confirmada depois pelo diplomata, já em Pyongyang). A tensão no país segue ciclos, e o nível atual já estava alto antes do teste, como costuma ocorrer com o aumento da retórica agressiva durante os exercícios militares conjuntos de EUA e Coreia do Sul, realizados anualmente nesse período. Por esse motivo, acho que o ambiente não deve ter mudado muito depois do teste.

Alguns analistas ouvidos há cerca de um mês não acreditavam em um ataque, de fato, por parte da Coreia do Norte. O senhor acredita que ele poderá ser realizado?

Quando chefes de Estado fazem ameaças de ataque, elas têm de ser levadas a sério. Dito isso, o fato de que a resposta a um ataque norte-coreano, como frisado há poucos dias pelo secretário de Defesa dos EUA, seria certamente avassaladora, torna pouco provável que a retórica se converta em realidade. O principal perigo, que vem sendo apontado por muitos analistas, é de erro de cálculo em uma das escaladas de ameaças ou provocações, que podem acabar deflagrando um conflito na região.

A nova ação de Kim Jong-un foi considerada pela imprensa internacional como uma nova humilhação para o presidente chinês, Xi Jinping, que recebia os líderes do Brics nesse dia, inclusive o presidente brasileiro, Michel Temer. O senhor acredita que o momento foi realmente planejado?

Normalmente, o dia dos testes é escolhido para marcar uma data importante para o país ou um evento importante no exterior. Em 2016, por exemplo, o quinto teste ocorreu no dia 9 de setembro, quando é celebrada a fundação do país. Mas no caso de domingo, acho que não é possível tirar conclusões sobre a relação entre o teste e o encontro dos líderes dos Brics, sobretudo por haver outras possíveis motivações, como a conclusão dos exercícios militares conjuntos, no fim da semana, ou as declarações emitidas nos dias anteriores.

A ONU e os EUA estão ampliando as sanções ao país. Isso seria suficiente para acalmar o líder norte-coreano? A China poderia estar atuando mais nesse episódio? Se sim, de que forma?

A China afirma consistentemente que, apesar de implementar as sanções multilaterais (adotadas pela ONU), essas medidas seriam apenas parte da estratégia para encaminhar o problema, sendo necessário também restabelecer o diálogo com o governo norte-coreano. Além disso, as autoridades chinesas refutam o protagonismo frequentemente atribuído à China na questão, ressaltando que são os americanos e norte-coreanos que devem encontrar solução diplomática para o problema. Por esse motivo, sua principal sugestão neste estágio é a suspensão simultânea dos testes, pela Coreia do Norte, e dos exercícios anuais na fronteira, pelos EUA.

O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, afirmou que o Brasil manterá sua embaixada na capital norte-coreana, dirigida pelo senhor, e teceu elogios ao seu trabalho. "É um funcionário corajoso, que está cumprindo bem o seu papel, sobretudo para nos dar informações sobre o que acontece no país, que é um ponto nevrálgico da política mundial. Nós vamos mantê-lo lá." Como recebeu o reconhecimento? O senhor pretende continuar no país?

Com muita satisfação. A transmissão de visão própria sobre os eventos do país onde se encontra cada embaixada é parte importante do trabalho do diplomata, e fico contente que nossa presença em Pyongyang esteja sendo relevante para a política externa brasileira. Pretendo, sem dúvida, permanecer no posto enquanto puder seguir contribuindo neste sentido.

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