AP Photo/Dolores Ochoa
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Análise: Ida ao 2º turno indica fim de ciclo para o bloco bolivariano

Derrota eleitoral do kirchnerismo na Argentina e a destituição de Dilma Rousseff no Brasil confirmam o crescente isolamento regional dos 'filhos de Chávez'

Carlos Malamud / INFOLATAM *, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2017 | 05h00

Lenín Moreno, candidato da Alianza País, não conseguiu vencer no primeiro turno, como desejava seu mentor Rafael Correa. A preocupação dos bolivarianos diante dos resultados considerados adversos é evidente. Perder o Equador será uma clara mensagem de final de ciclo. A derrota eleitoral do kirchnerismo na Argentina e a destituição de Dilma Rousseff no Brasil confirmaram o crescente isolamento regional dos “filhos de Chávez”. Daí a mais do que obstinada (e apressada) mensagem de Evo Morales na noite da eleição, pelo Twitter: “Comemoramos o triunfo em primeiro turno do Irmão Moreno. Uma vitória dos povos revolucionários da #Patria Grande.”

Depois de um início rápido de contagem dos votos, chegou um momento em que a apuração parou e o portal do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) começou a ter problemas, com os partidos e cidadãos começando a manifestar seu temor de uma suposta manipulação. Do lado do governo, havia setores impacientes para vencer já no primeiro turno e encerrar o processo. 

A falta de imparcialidade dos mecanismos de controle, a começar pelo CNE, alimentava as suspeitas de fraude e manipulação. Essa situação e a ameaça de manifestações de rua levaram os militares a se pronunciar pela lisura do processo e os dirigentes do CNE a pedirem calma. Apesar disso, e ferido em seu orgulho, Correa declarou de modo contundente que em caso de fraude o prejudicado seria a Alianza País.

A batalha definitiva será em 2 de abril. Assistiremos a uma eleição muito diferente. Simón Pachano lembrou que nas eleições de 1984, 1996 e 2006 o vencedor perdeu no primeiro turno. É preciso ver como irão se recompor as alianças, como serão os apoios dos partidos minoritários. Cynthia Viteri, candidata social-cristã que obteve 16,22% dos votos, já manifestou seu apoio a Guillermo Lasso, como também o fizeram Jaime Nebot, prefeito de Guayaquil, e Mauricio Rodas, prefeito de Quito. Paco Moncayo, candidato da esquerda não ligada a Correia, afirmou que não apoiará nenhum dos candidatos.

A governabilidade no Equador será mais complicada do que nos governos anteriores de Correa. A debilidade econômica vai se prolongar e o próximo presidente terá de conseguir grandes equilíbrios para sanar as contas públicas e conseguir o apoio dos seus cidadãos. No caso de uma eventual vitória de Lasso, ele terá de governar com um Parlamento adverso. De qualquer maneira, não sabemos com certeza se a aposta de Correa, de retornar vitorioso em socorro de um país falido, funcionará. Além do desejo de passar um período de estudos na Europa, ele tentará manter uma presença quase permanente junto à opinião pública. Mas essa pode ser uma faca de dois gumes para uma população que, numa grande porcentagem, está saturada de tanta revolução. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CATEDRÁTICO DE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA DA UNIVERSIDADE NACIONAL DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, DE MADRI. PUBLICADO SOB LICENÇA DA INFOLATAM

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