Jose Goitia|The New York Times
Jose Goitia|The New York Times

Análise: Revolucionário, herói, autoritário e maior mito cubano

Há tempos, o líder cubano não era mais do que um remanescente de um momento histórico que terminou com a Guerra Fria

Rubens Barbosa* , O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2016 | 05h00

Revolucionário, herói, governante autoritário, líder mundial, orador tipo maratona, lutador infatigável contra os EUA e, no final da vida, humanizado, frágil e vencido pela doença, conferiu a seu país uma relevância e uma visibilidade que o tamanho territorial e a importância econômica nunca poderiam justificar.

Fidel Castro talvez tenha sido o último dos caudilhos e dos líderes carismáticos da América Latina. O seu afastamento, em 2008, da liderança de Cuba representou o fim de uma era na verdade já passada. Há tempos, o líder cubano não era mais do que um remanescente de um momento histórico que terminou com a Guerra Fria.

Não importa o ângulo político ou ideológico a partir do qual se possa analisar o legado de Fidel, personagem complexo que permanecerá na história como uma figura marcante que influenciou mais de uma geração de jovens idealistas que viram na revolução liderada por ele a esperança de um mundo com mais justiça social.

Considerado o pai da Pátria, o fundador da Cuba atual, deixa a seus sucessores um país pobre e enfraquecido que sobreviveu com o apoio da ex-URSS até a queda do Muro de Berlim. Com a implosão do regime comunista em Moscou, Fidel não teve outro recurso senão permitir uma gradual e controlada abertura da economia para receber investimentos externos e manter a economia funcionando. Respirou aliviado com o respaldo dos petrodólares de Hugo Chávez. A população, cuja renda per capita está ao redor de apenas US$ 4 mil, pôde beneficiar-se de ensino e saúde precários, porém gratuitos.

Nos últimos quase 50 anos, imprimiu seu toque pessoal às decisões políticas, econômicas e sociais em Cuba e deixou sua marca registrada em alguns acontecimentos internacionais de grande significado, como a invasão de Cuba estimulada pelo governo americano e a Crise dos Mísseis que colocou o mundo à beira de um conflito nuclear. O mito Fidel começou a esmaecer ainda em vida. Os últimos 15 anos de seu governo, diante das crescentes dificuldades econômicas internas, deixaram em um já longínquo passado as tentativas de exportar a revolução, de criar focos de insurreição na América Latina, de apoiar movimentos revolucionários na África e de ser um peão no tabuleiro da Guerra Fria ao lado da URSS.

Fidel nunca foi um ideólogo, mas um homem de ação. Não deixa, portanto, um legado doutrinário. Muito de sua áurea heroica, Fidel deve aos EUA. Sobreviveu, literalmente falando, a dez presidentes americanos. A hostilidade e o enfrentamento político, militar, econômico e diplomático contínuos com Washington e com a comunidade cubana de Miami, só o ajudaram a se manter no poder. A ameaça externa – tornada concreta pela ação do CIA na Baía dos Porcos e em tentativas de assassinato, ao lado do bloqueio econômico e comercial – foi muito bem utilizada pelo nacional-patriotismo mobilizador interno que Fidel encarnou.

Fidel soube captar o imaginário da juventude nos anos 60, prenhe de fantasias de mudar o mundo. O regime político e o sistema econômico sobreviverão com nova cara e dinâmica. A revolução não será julgada no desaparecimento de seu líder máximo. Gradualmente, começará a ser feita uma revisão histórica de sua vida sem maiores consequências sobre os rumos do país em mãos inicialmente de Raúl Castro e depois, seguramente, de uma geração mais jovem que promoverá mais ajustes econômicos, políticos e sociais, impensáveis na vida de Fidel. Tudo sob o controle do Partido Comunista e das Forças Armadas, como estabelecido por Fidel, em Cuba, e Mao, na China. 

Fidel ainda viveu para ver seu irmão Raúl Castro restabelecer relações com os EUA, receber o presidente Obama em Havana e o embargo econômico ser gradualmente erodido por medidas unilaterais tomadas pelos EUA. Sem se opor a essas importantes atualizações da política externa de seu país, Fidel abriu mão de uma de suas armas mais poderosas: a ideologia. Com Donald Trump, tudo indica que não haverá retrocesso nas medidas tomadas por Washington, mas tampouco avanços nos dois aspectos remanescentes da Guerra Fria, o fim da base de Guantánamo e a revogação do embargo econômico. 

Sem a mística de Fidel, Cuba voltou a ser aquela minúscula nação do Caribe, cuja importância está na razão direta de sua proximidade com os EUA e da influência da comunidade cubana de Miami na política interna americana. 

Dificilmente alguém poderá substituir Fidel Castro como líder carismático e ideológico na América Latina. As circunstâncias históricas, as realidades e as demandas atuais são completamente diferentes. Hugo Chávez, com sua Revolução Bolivariana do século 21, procurou se apresentar como o sucessor de Fidel. Sem sucesso, pois, como diria um dos heróis de Fidel, Karl Marx, a história só se repete como farsa.

A frase de Borges, segundo a qual a imagem que deixamos de nós mesmos na memória dos outros é a obra mais importante de um homem, serve bem ao velho comandante. Confiante em sua obra, Fidel gostava de repetir: “A história me absolverá”.

*É PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DE COMÉRCIO EXTERIOR

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