EFE/Michael Reynolds
EFE/Michael Reynolds

Análise: Trump provoca acomodação na mídia conservadora

Quando a coroação do magnata como candidato republicano se tornou inevitável, Rupert Murdoch viu a oportunidade de repetir o que já fizera na Austrália e no Reino Unido: comprar a gratidão de políticos

Lúcia Guimarães, correspondente / Nova York, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 10h09

NOVA YORK, EUA - Não haveria presidente Trump sem o executivo Roger Ailes, morto na quinta-feira 18. No mesmo dia, George Bush pai, aos 92 anos, fez questão de registrar no Twitter que devia a presidência a Ailes, fundador e ex-diretor da Fox News. Seu filho, George W. Bush, poderia dizer o mesmo. De fato, é justo somar Richard Nixon e Ronald Reagan à lista de republicanos que usaram a intimidade do executivo com a televisão para chegar à Casa Branca.

Mas, na semana em que perdeu seu amigo, o proprietário da Fox, Rupert Murdoch, sofreu outra baixa. Pela primeira vez em 15 anos, a emissora perdeu a liderança de audiência no jornalismo da TV a cabo nos EUA e caiu para terceiro lugar, atrás da MSNBC e da CNN. Analistas de mídia e políticos veem uma acomodação geológica ironicamente provocada pelo homem que a Fox ajudou a eleger, num fenômeno que mistura os três, Ailes, Murdoch e Donald Trump. 

A Fox deu farto espaço ao então candidato Trump, embora ele não fosse o preferido de Murdoch. Ailes estava em contato constante com o republicano, que chegou a ter um estremecimento com o canal porque uma âncora do horário nobre lhe fizera perguntas duras num debate. Mas, em junho de 2016, estourou um grande escândalo de assédio sexual protagonizado por Ailes e envolvendo inúmeras jornalistas que passaram pela Fox.

Uma conhecida jornalista, com quem ele não renovou contrato, deu a partida para o efeito dominó de denúncias e advogados entraram em cena. Revelou-se que o comportamento de Ailes combinava mais com um bordel de parada de caminhão do que com o de uma corporação com sede na 6.ª Avenida em Manhattan. Murdoch, de 86 anos, sob pressão dos filhos já na sua linha de sucessão na empresa dona da Fox - que é o quarto maior conglomerado de mídia do mundo -, teve que despachar Ailes com um paraquedas dourado de US$ 40 milhões em julho de 2016. 

Os filhos Lachlan e James Murdoch, que não suportavam Ailes, pareciam ter planos de deslocar a Fox mais para o centro. Fundada em 1996, a rede se tornou vitrine de uma direita progressivamente mais conservadora e fez carreira de políticos. Nos oito anos da era Obama, a Fox tinha adquirido um tom quase caricato contra o primeiro presidente negro. A teoria conspiratória do movimento "birther", promovido por Donald Trump, que afirmava que Obama nasceu no Quênia, foi inúmeras vezes mencionada no ar. Mas o choque da queda de Roger Ailes fez com que o patriarca Murdoch se envolvesse de novo no dia a dia da Fox. Ele apoiou conservadores em três continentes. Não é um ideólogo, é um empresário no estilo da famosa frase de Groucho Marx: “Esses são os meus princípios, se não gostar deles, bem, tenho outros.” 

Quando a coroação de Trump como candidato republicano se tornou inevitável, Murdoch viu a oportunidade de repetir o que já fizera na Austrália e no Reino Unido: comprar a gratidão de políticos. Dificilmente haveria um primeiro-ministro trabalhista Tony Blair se Murdoch não tivesse virado seus jornais contra o até então habitual protegido Partido Conservador, em 1997.

Para dissabor dos filhos, Murdoch não só manteve o tom exaltado da cobertura antiliberal, como transformou a Fox numa TV semi-estatal. Ele fala com Trump e com o genro dele, Jared Kushner, transformado em poderoso e onipresente assessor, várias vezes por semana. 

Apesar da notória astúcia como empresário, Rupert Murdoch pode ter feito um erro de cálculo. Ele só quer apresentar notícias positivas sobre a presidência inaugurada em janeiro, e trata-se de um bem atualmente escasso. Como se sabe, Donald Trump é o presidente mais impopular em começo de mandato da história das pesquisas de opinião. Atracado com seu smartphone, ele provoca crises domésticas e internacionais tuitando compulsivamente. Duas novas pesquisa de opinião mostram que a queda de aprovação do presidente se aprofundou em razão de um começo de deserção dos que votaram nele. Os eleitores de Trump equivalem a 19% da população adulta dos EUA. 

Numa tarde como a de sexta-feira 19, quando três furos de reportagem colocavam a Casa Branca no epicentro de denúncias de obstrução de justiça, acobertamento e revelavam que Trump achincalhou o diretor do FBI em conversa com o chanceler russo, quem sintonizasse na Fox estaria se informando sobre diversas intempéries como tornados. O âncora noturno Sean Hannity, praticamente um marqueteiro presidencial, só se refere à série de escândalos, a maioria envolvendo a conexão russa da campanha, como vazamentos criminosos que precisam ser estancados. 

Um ex-deputado republicano, Joe Scarborough, hoje comentarista político e líder de audiência na mais liberal rede MSNBC, fez o diagnóstico sucinto. A audiência da Fox caiu porque o sentimento conservador perdeu intensidade e eles não estão cobrindo o que é notícia. Há uma fadiga de crise entre os americanos. Um jornalista ex-empregado de Murdoch, que editava a conservadora página editorial do Wall Street Journal, no sábado, publicou sua avaliação no New York Times. O modelo da Fox, que tanto fortaleceu e aumentou o território político da direita, é o mesmo que está destruindo o discurso conservador com extremismo e falta de civilidade, argumentou Bret Stephens.

Trump foi eleito com grande impulso da chamada direita alternativa, representada por sites nacionalistas como o Breitbart, que era dirigido por Steve Bannon, hoje ocupando um escritório perto do Salão Oval. A eleição de 2016, marcada por vasta manipulação de redes sociais e disseminação de notícias falsas, erodiu a legitimidade das figuras de mídia que representam o tradicional pensamento conservador.

A decisão de atrelar a Fox ao destino de Trump está se refletindo na queda de audiência. Mas Rupert Murdoch é leal à planilha de lucros. Se ele mudar a direção do barco, o estrago para a Casa Branca será potencialmente maior do que o de comitês controlados pelos republicanos que investigam o presidente no Congresso.

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