NICHOLAS KAMM/AFP
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Análise: Um brinquedo que se mexe muito, mas não sai do lugar

Os romanos diziam que, para manter o povo satisfeito, basta dar-lhe pão e circo. Até agora, de Trump, só vimos o circo

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

Digamos que você seja um eleitor típico de Donald Trump – um americano honesto, trabalhador, que aguenta as extravagâncias do líder porque quis alguém que resistisse ao jogo político de Washington. O que você está achando? As primeiras semanas do governo ilustram a máxima do escritor Alfred Montapert: “Não confunda movimento com realização. Um cavalinho de balanço se move, mas não sai do lugar.” Vemos uma presidência em que todos se agitam furiosamente sem avançar nada.

Desde que foi eleito, Trump vem dominando o noticiário. Agitação à parte, no entanto, o que ele já fez de verdade? Praticamente nada. Na quinta-feira, ele afirmou: “Nunca uma presidência fez tanto em tão pouco tempo”. Matthew Yglesias, do site Vox, lembrou que, a essa altura do mandato, o presidente Barack Obama já havia lançado um plano de estímulo à economia, ampliado o seguro-saúde para crianças e tornado mais fácil ir contra práticas trabalhistas desonestas. 

Yglesias assinalou que a Casa Branca nem começou a discutir grandes temas legislativos com o Congresso. O Washington Post informou que, de 696 nomes para postos-chave que exigem confirmação do Senado, 661 ainda não foram indicados. Trump baixou decretos, mas, na maioria, sobre coisas sem importância. A única ordem com algum alcance, a proibição de viagens, foi tão mal elaborada e redigida que parou na Justiça e terá de ser refeita ou abandonada. 

O historiador Douglas Brinkley observou que Trump é uma criatura de reality show para quem há apenas duas regras: manter o foco em si mesmo e ser sempre interessante. O presidente certamente segue esses mandamentos. Mas, e quanto ao que ele prometeu? E os planos de reindustrializar o Meio-Oeste? E seus compromissos de “no primeiro dia” começar a “expulsar imigrantes ilegais”, declarar a China “manipuladora de moeda”, criar um projeto de emenda constitucional para impor limites de mandatos para membros do Congresso? Tudo foi prometido, quase nada foi feito.

Há dois aspectos na presidência de Trump. Existe o Trump do espetáculo – dos tuítes, das afirmações mentirosas, dos atritos com quem se recusa a se curvar a ele. Mas há também o experiente empresário, que nomeou competentes pesos pesados como Rex Tillerson e James Mattis para postos-chave. Muita gente estaria disposta a aturar o Trump do espetáculo em troca de uma reforma tributária, projetos de infraestrutura e desregulamentação. Ainda pode acontecer, mas até agora o reality show domina.

Aquele eleitor típico deve estar se perguntando como as brigas com a imprensa trarão empregos de volta? Como atacar o Judiciário ajudará trabalhadores demitidos? Talvez Trump tenha uma visão televisiva da presidência. A chave seria sempre parecer que está fazendo coisas. Os romanos diziam que, para manter o povo satisfeito, basta dar-lhe pão e circo. Até agora, de Trump, só vimos o circo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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