AP Photo/Hassan Ammar
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Análise: Uma reação inédita de Síria e Rússia a um ataque preciso

O ataque na Síria contra os centros de pesquisa, produção e armazenamento de armas e agentes químicos chegou tarde – mas foi preciso e destruidor. E foi combinado com os russos, cientes da operação

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h00

O ataque de sexta-feira, 13, na Síria contra os centros de pesquisa, produção e armazenamento de armas e agentes químicos chegou tarde – mas foi preciso e destruidor. E foi combinado com os russos, cientes da operação. Participaram forças dos Estados Unidos, França e Reino Unido. 

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O fogo veio do céu, como era previsto, na forma de mísseis de cruzeiro de alta precisão da classe Tomahawk, com uso de superbombardeiros B1 e, talvez, também bombas inteligentes de diversos tipos. Os russos, que apoiam o regime do ditador Bashar Assad, ficaram calmamente instalados nas três bases militares que mantêm no país, durante os 45 minutos de duração do bombardeio.

Participaram indiretamente. Modernos sistemas de defesa antiaérea fornecidos ao governo sírio por negociação direta entre Assad e o presidente Vladimir Putin conseguiram interceptar ao menos 13 mísseis – uma façanha. Isso jamais havia acontecido anteriormente.

Os alvos visados tem a ver com o complexo estratégico sob controle do Centro de Estudos e Pesquisa Científica da Síria. Nos termos do acordo fixado pela Organização das Nações Unidas, em 2013, a instituição deveria ter sido desativada – a rigor, funcionava apenas para abastecer o Comando Aeroestratégico criado por Hafez Assad, pai de Bashar, como recurso de dissuasão, dotado de imensos estoques de armas químicas.

No entanto, foi preservado sob o argumento de que seu trabalho era fundamental para o ensino universitário. As principais instalações do centro estavam em Al-Safira, onde eram montados os mísseis Hwasong-6, de médio alcance, fornecidos pela Coreia do Norte, Hama, sede da linha de conversão para receber gases das ogivas dos Scud-C, entregues pela Rússia nos anos 90, Latakia e Palmira, cidades que abrigavam laboratórios.

Houve significativo manejo dessas estruturas ao longo da guerra civil de sete anos. A capital, Damasco, mais protegida das operações dos grupos de oposição, passou a abrigar as unidades de pesquisa e, segundo agências de inteligência de França e Reino Unido, três bancos de estocagem de cargas químicas e biológicas de uso em combate.

Laboratórios, linhas de fabricação e depósitos teriam sido distribuídos por Dumayr, Sharmat, Khan Abu e Furqlus, perto do deserto. No total, “centenas de toneladas”, na análise do secretário da Defesa americano, James Mattis, de gases Sarin, VX e sulfúrico. 

 

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