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Antes da Primavera Árabe, veio o inverno persa

Em nome da liberdade, iranianos tomaram as ruas em julho de 2009, mas acabaram silenciados

Adriana Carranca

16 Dezembro 2011 | 22h00

SÃO PAULO - Quando os primeiros protestos despontaram no Mediterrâneo, a sensação entre os jovens do Irã foi de déjà vu. As demandas das massas que tomaram Teerã, em junho de 2009, eram as mesmas que levaram milhares à Praça Tahrir quase dois anos depois: liberdade, democracia, prosperidade. Para muitos, foi o inverno iraniano, e não a Tunísia, o precursor da Primavera Árabe.

 

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"Os protestos que o mundo assistiu pela TV não eram simplesmente contra a reeleição do presidente (Mahmoud) Ahmadinejad, mas motivados por questões mais profundas, pelo desejo de mudança. Gente sem nenhuma ligação política foi para a ruas porque queria mais liberdades civis, democracia, maior abertura econômica e melhor relacionamento com o mundo, promessas da oposição", diz a iraniana Marjaneh, de 33 anos, que pediu para não ter o sobrenome revelado.

 

Como muitos de sua geração, ela emigrou para a Europa em busca de oportunidades. A repressão implacável do regime e a falta de apoio à população civil, ela acredita, distanciaram o Irã da Primavera Árabe. "O regime iraniano estava muito mais preparado para combater os protestos do que os governos do Egito ou da Tunísia." Ao contrário dos aiatolás, o presidente da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, não ofereceu resistência. No Egito, os manifestantes tiveram do seu lado o Exército; na Líbia, o apoio da Otan.

 

A oposição fala em mais de 70 mortos somente nos primeiros três meses do início dos protestos de 2009. Houve prisões em massa - Mir Hossein Mousavi vive em prisão domiciliar desde então - e um blecaute nas telecomunicações para evitar que os manifestantes se reorganizassem e suas reivindicações fossem conhecidas no mundo.

 

Despertar

 

A instabilidade regional não foi ruim para o Irã - manteve alto o preço do petróleo e tirou do caminho Hosni Mubarak, do Egito, um antigo desafeto pró-EUA. Internamente, porém, representava uma ameaça. Quando os protestos começaram a ganhar ares de revolução, o regime lançou mão da retórica para tentar convencer os iranianos de que se tratava de um "despertar islâmico", nas palavras do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Não convenceu.

 

Mais de 70% dos iranianos são jovens nascidos após a Revolução Islâmica de 1979. Uma geração que não se identifica com os velhos aiatolás, cresceu conectada à internet e tem demandas bem seculares. "Mohamed Bouazizi (cuja autoimolação foi o estopim dos protestos na Tunísia) queria uma coisa: viver com dignidade. Há muitos Bouazizis no Irã. Frustrados, desempregados, fartos de um governo que, no lugar de dar-lhes oportunidades, coloca obstáculos em seu caminho", diz o especialista em geopolítica do Oriente Médio Afshin Molavi.

 

Em fevereiro, a queda de Mubarak renovou as esperanças entre os iranianos e eles voltaram às ruas em manifestações que prosseguiram por, pelo menos, sete meses. Milhares foram presos. Organizações de direitos humanos denunciaram mais de 300 execuções, este ano, de jovens supostamente condenados por crimes comuns - dezenas, porém, foram realizadas publicamente nos meses de protestos.

 

"Muitos foram presos, mortos, mas nada mudou. Então, aquela energia do início foi sendo substituída pela frustração. O Irã mudou muito... Há o clima de medo e depressão generalizada", diz Marjaneh. "Minhas primas vieram para a Espanha, amigas tentam visto para o Canadá. Como não podem mudar nada, os jovens estão deixando o Irã."

 

A REPÓRTER ADRIANA CARRANCA ESTEVE EM TEERÃ NO INÍCIO DOS PROTESTOS E ESCREVEU O LIVRO 'O IRÃ SOB O CHADOR' (ED. GLOBO) EM COAUTORIA. É AUTORA DE 'O AFEGANISTÃO DEPOIS DO TALIBÃ' (ED. CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA)

 

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