Antiterrorismo vai pautar relações entre países, diz o IISS

Na avaliação do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos (IISS, sigla em inglês), um dos mais importantes centros de estudos de assuntos militares e geopolíticos do mundo, vai chegar um momento no futuro no qual a campanha contra o terrorismo se tornará uma rotina, parte da estrutura das relações internacionais, como ocorreu durante a Guerra Fria. A exemplo dos tempos do mundo bipolarizado entre os Estados Unidos e a União Soviética, a campanha contra o terrorismo será norteada por crises especiais, conflitos e por um longo e determinado esforço para garantir a vitória. "Ela será difícil de ser conduzida, pois o inimigo será variado e invisível, e a vitória será mais difícil de ser determinada e declarada do que na Guerra Fria", disse o diretor do IISS, John Chipman. "Usando um frase militar, manter a mira será difícil." Ele ressaltou que os ataques contra os Estados Unidos deram início a uma nova era nas relações internacionais. Os Estados Unidos tem um novo inimigo, que não é nem a antiga União Soviética nem a China, mas o terrorismo e os Estados por ele patrocinados. Segundo Chipman, o grande desafio da comunidade internacional será concentrar-se na campanha contra o terrorismo sem "transformar isso num prisma através do qual tudo é visto". Outros desafios nas relações internacionais precisam ser detectados, entendidos e resolvidos em seus próprios termos. "Seria errado e desnecessário conectar a campanha contra o terrorismo a todas as frentes, como muitas vezes ocorreu durante a Guerra Fria", disse. "A campanha contra o terrorismo será um foco, mas o resto das relações internacionais não será anulado por causa de 11 de setembro." Segundo Chipman, na Guerra Fria, "aliados eram escolhidos, regimes apoiados, contra-revolucionários armados e pessoas obscuras financiadas, apenas com o objetivo de batalha, dando-se pouca consideração às novas instabilidades que essas ações poderiam gerar". Ele alertou que os países ocidentais, no esforço de derrotar o terrorismo com alcance global, "se verão constantemente em circunstâncias nas quais, por um lado, necessitam derrotar certos inimigos mortais em lugares específicos e, por outro lado, precisam participar de uma engenharia social com ampla base internacional". Por isso, segundo ele, a campanha contra o terrorismo internacional poderá "dar um novo significado às estratégias globais". Chipman disse que países que no passado mantinham difíceis relações com os Estados Unidos, como Rússia, Paquistão e Irã, têm agora uma oportunidade de desenvolver uma nova estratégia. "Novas relações, mesmo alianças, serão construídas na campanha contra o terrorismo, e elas poderão durar por um longo tempo. O diretor do IISS que as mudanças no cenário internacional terão um impacto no contexto doméstico no qual a política externa é feita. "Os governos serão novamente julgados por sua competência em manter a população segura e a sabedoria de sua política internacional." Segundo ele, foram-se os tempos nos quais os assuntos econômicos resumiam as prioridades políticas. Segundo Chipman, a campanha contra o terrorismo no Ocidente provavelmente tornará as sociedades mais conservadoras, "com um c minúsculo". Os debates sobre imigração e asilo político, legislação antiterrorismo e liberdades civis deverão ter um tom mais conservador. "Haverá também um senso renovado de que as disputas internas no Ocidente precisam ser contidas por causa da nova necessidade de solidariedade política internacional." Ele observou que a coalizão contra o terrorismo é muito diversificada, "de geometria variável". Até o momento, além dos Estados Unidos, apenas a Grã-Bretanha se envolveu em todos os elementos da campanha. "A coalizão não é meramente liderada pelos Estados Unidos, mas poderá ser influenciada por outros países, justamente por causa de uma participação inconsistente e variada." A administração do presidente George W. Bush, segundo Chipman, apesar de ter decidido pagar as suas dívidas com as Nações Unidas e manter amplas consultas intencionais, "não abraçou a diplomacia multilateral no significado tradicional, nem assumiu uma nova afeição por tratados internacionais". Ao contrário, é bem provável que o governo dos Estados Unidos "assuma uma oposição ainda mais vigorosa contra os tratados internacionais", para não se ver limitado quando precisar agir em defesa própria. Em relação à atual ofensiva militar no Afeganistão, o diretor do IISS disse que a prioridade absoluta de destruir a rede do al- Qaeda e localizar Osama bin Laden "significa que a integridade militar da campanha não poderá ser para sempre dependente das complexas negociações com as facções afegãs". Mas o sucesso da campanha militar no Afeganistão vai requerer "uma aproximação mais conseqüente para garantir que a mistura certa de indivíduos" forme um governo em Cabul. "Ninguém quer ser acusado de impor um regime ao Afeganistão, mas fracassar na organização de sua estrutura será um ato de negligência estratégica". Chipman assinalou que as Nações Unidas provavelmente terão um desafio no Afeganistão maior do que o vivido no Camboja ou no Timor do Leste. Chipman fez a sua análise durante o lançamento da edição 2000/2001 do "Balanço Militar´, estudo anual do IISS que faz uma detalhada análise dos conflitos e gastos com armamentos no mundo. Segundo o estudo, o cenário militar global é ambíguo. Os projetos militares de algumas das principais potências bélicas estão aumentando, enquanto os gastos com o setor diminuem. Após os ataques nos Estados Unidos, os países terão de reavaliar suas prioridades de gastos com defesa e segurança. "Esses gastos devem aumentar", disse o IISS. Mesmo antes dos eventos de 11 de setembro, cálculos preliminares já indicavam que os gastos militares globais neste ano seriam superiores aos do ano passado, quando somaram US$ 804 bilhões, o mesmo valor registrado em 1999. Leia o especial

Agencia Estado,

18 Outubro 2001 | 18h08

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