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Sergei Karpukhin|Reuters

Apesar de riscos políticos e financeiros, Arábia Saudita mantém produção de petróleo

Monarquia aposta que pode vencer a guerra do preço do petróleo contra rivais na Opep; ouro negro responde por mais de 70% da receita do governo saudita 

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Stanley Reed - The New York Times* ,
O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2016 | 07h00

É uma questão de cálculo saudita. O preço do petróleo já estava desabando há 14 meses quando, por insistência da Arábia Saudita, a Opep, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, avisou o setor petroleiro mundial: seus membros não tentariam elevar os preços cortando a produção.

"Não queremos pânico", disse Abdalla el-Badri, secretário-geral da Opep, a repórteres da reunião da entidade em novembro de 2014 em Viena. "Queremos ver como o mercado se comporta."

Desde então, o mercado tem se comportado de um jeito que poucos teriam previsto – incluindo a Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo. O preço do ouro negro caiu sob o peso de uma abundância internacional crescente, piorada pelo crescimento lento da economia global.

E, mesmo assim, os sauditas continuam bombeando petróleo praticamente com capacidade total. E convenceram seus aliados da Opep no Golfo Pérsico – Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar – a fazer o mesmo, apesar da pressão crescente de outros grandes membros da entidade para reduzir a produção.

É uma estratégia de risco – que já está desgastando as finanças sauditas e ameaçando a capacidade do reino de continuar oferecendo programas sociais generosos, como habitação subsidiada e energia barata, que a família real usa há muito tempo para comprar a paz interna.

O petróleo responde por mais de 70% da receita do governo da Arábia Saudita. E, embora os sauditas ainda tenham uma reserva financeira de US$ 630 bilhões, eles a gastam em um ritmo de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões por mês, segundo Rachel Ziemba, analista da Roubini Global Economics, em Nova York.

Porém, até agora, o país está basicamente apostando que pode vencer a guerra do preço do petróleo – contra rivais na Opep como Irã, Iraque e Venezuela, e outros que não integram o organismo, tais como a Rússia e os muitos produtores de petróleo de xisto nos Estados Unidos, que contribuíram para a abundância mundial.

Os sauditas argumentam que reduzir a produção de petróleo por um período de curto prazo poderia ajudar os produtores de xisto nos EUA, alguns dos quais já mostraram sinais de falta de força no ambiente atual.

Os produtores já reduziram o número de aparelhos em ação nos Estados Unidos, enquanto falências se espalham no segmento. Porém, a produção continua resiliente, pois os poços continuam mais eficazes e grandes projetos petroleiros no Golfo do México, concebidos em uma era de US$ 100 o barril, entraram em produção.

Além disso, o Irã pode aumentar as exportações agora que as sanções ocidentais foram parcialmente retiradas, potencialmente elevando sua produção diária bem acima do nível atual de 2,9 milhões de barris por dia.

Com o mundo inundado por petróleo, os sauditas temem que recuar possa apenas resultar na erosão de sua participação no mercado – que é de um a cada nove barris produzidos em escala mundial.

Todos esses fatores se somam para justificar a existência de poucas possibilidades de o preço do petróleo subir significativamente em breve, a menos que o reino mude repentinamente de curso.

"Se os preços continuarem baixos, poderemos mantê-lo por um longo tempo", disse Khalid al-Falih, presidente da Saudi Aramco, empresa estatal responsável pelo petróleo, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.

Recentemente, o petróleo bruto do tipo Brent, que funciona como ponto de referência internacional, era negociado a US$ 31,80 o barril. É mais do que os US$ 27, menor valor em 12 anos, que o petróleo atingiu há pouco tempo. Porém, continua sendo 70% mais baixo do que o nível de US$ 114 de meados de 2014, antes do colapso do preço.

Por mais audaciosa ou até mesmo autodestrutiva que a abordagem saudita possa parecer, é uma política nascida com base no pragmatismo. Qualquer que seja a atitude da Arábia Saudita em relação à produção do petróleo, seus dois maiores vizinhos da Opep, Iraque e Irã, o maior rival regional do reino, podem ter seus próprios motivos econômicos e geopolíticos para manter a produção ou até mesmo elevá-la.

E a Rússia, grande produtor não filiado à Opep, está envolvida em uma crise financeira em razão da queda dos preços e por sanções ocidentais e pode ter pouca escolha além de manter a produção e embolsar qualquer receita possível.

Os sauditas também precisam de um nível elevado de produção para bancar sua rede de exportação, refinarias domésticas e setor petroquímico.

"Para manter uma economia em termos de investimentos não é possível aumentar ou reduzir a produção em 500 mil barris sempre que o mercado quer aumentar o preço", declarou Sadad al-Husseini, ex-vice-presidente da Saudi Aramco, que agora administra a Husseini Energy, consultoria com escritórios no Bahrein e na Arábia Saudita.

Mesmo assim, os sauditas sabem que enfrentam tempos difíceis e sua dependência do petróleo os deixou vulneráveis.

Em um momento de grande fermentação política no Oriente Médio, o preço de petróleo em queda devastou a receita das exportações que impulsiona o crescimento econômico na Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico nos últimos anos. O reino enfrenta um déficit orçamentário crescente e o espectro de uma recessão econômica.

O governo saudita já teve de cortar alguns de seus generosos subsídios sociais, aumentando recentemente o preço da gasolina ao consumidor. E, esperando achar uma nova maneira de monetizar seus ativos petroleiros e começar a diversificar a economia dependente do ouro negro, o país cogitou a ideia de lançar ações da Saudi Aramco.

"Do meu ponto de vista, a estratégia não está funcionando", afirmou Nordine Ait-Laoussine, ex-ministro de energia da Argélia, membro da Opep, a respeito da decisão saudita de elevar a produção de petróleo.

El-Badri, o secretário-geral da Opep, que é líbio, certamente já acompanhou o comportamento do mercado por muito tempo, e, recentemente, pediu um esforço coletivo para reduzir a abundância global. "É crucial que todos os grandes produtores se reúnam para encontrar uma solução para isto", ele disse durante discurso no Chatham House, instituto londrino de pesquisa.

A Venezuela tem pressionado por uma reunião de emergência dos membros do cartel. Porém, os sauditas permanecem resolutos. "Nossos investimentos na capacidade de petróleo e gás não foram reduzidos", explicou o presidente da Saudi Aramco. 

Mesmo assim, embora os sauditas estejam queimando suas reservas financeiras, não existe perigo de que elas terminem em breve. Por isso, Bhushan Bahree, analista da Opep da consultoria de energia IHS Energy, Washington, espera que os sauditas mantenham sua posição.

Se a Arábia Saudita cortar a produção por conta própria, argumentou Bahree, "o que acontecerá a seguir? O Irã produz mais, o Iraque produz mais. Então, o que eles fizeram? Pressionaram o preço para cima temporariamente, mas perderam participação no mercado, que pode ser difícil de recuperar".

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