REUTERS/Benoit Tessier
REUTERS/Benoit Tessier

Após apoio a Hollande em 2012, voto muçulmano se divide na França

Decepcionada e sentindo-se discriminada depois dos atentados, comunidade islâmica debate se irá às urnas

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2017 | 20h00

PARIS - Os muçulmanos da França, que em 2012 votaram em massa na candidatura de François Hollande, do Partido Socialista (PS), estão dispersos este ano entre a abstenção, em sinal de protesto, e o voto em diferentes candidatos, entre os quais Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical. 

Em meio à onda de atentados terroristas em nome do grupo Estado Islâmico, que teve um novo episódio na quinta-feira à noite, na Avenida Champs-Elysées, em Paris, nenhum candidato se apresenta como um defensor das comunidades muçulmanas, que se sentem atacadas pela candidata de extrema direita Marine Le Pen. 

O tradicional voto à esquerda das comunidades islâmicas acabou frustrado pelo governo de François Hollande. O primeiro-ministro Manuel Valls não se furtou em fazer um discurso duro em direção às lideranças islâmicas francesas após o início da onda de atentados, em 2015. Seu objetivo era obrigar os líderes a se mobilizar contra a radicalização de jovens franceses muçulmanos, que aderiram aos milhares ao grupo terrorista Estado Islâmico. O discurso de Valls, em defesa do secularismo do Estado e contra os véus muçulmanos, foi recebido como a gota d’água por comunidades já decepcionadas com o governo Hollande.

Na campanha de 2017, o afastamento dos candidatos dos eleitores muçulmanos também foi motivo de decepção. No 34.º Encontro Anual dos Muçulmanos da França, realizado no último sábado, em Le Bourget, região metropolitana de Paris, nenhum dos 11 pretendentes ao Palácio do Eliseu aceitou convites para discursar no evento da União das Organizações Islâmicas da França (UIOF). 

Sem atenção dos líderes políticos, as comunidades estão desorientadas. Parte continua votando à esquerda, mas migrou do Partido Socialista (PS) para o movimento França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. Outra não encontra um favorito.

Diante de tanta desilusão, um candidato nanico com 0,5% das intenções de voto, François Asselineau, do partido eurofóbico União Popular Republicana (UPR), tem ganhado adesões. Com um discurso duríssimo em relação à União Europeia - ele se apresenta como “o candidato do Frexit” -, Asselineau tem uma posição consensual em relação ao eleitorado muçulmano. “Na França, há uma estigmatização constante de nossos compatriotas de origem muçulmana”, diz.

 

Para Hamza Bouchami, estudante da Universidade Panthéon Sorbonne, a opção pelo candidato nanico é a melhor. “Emmanuel Macron é o maior sionista deste país. É o pior de todos”, diz. “Asselineau é a melhor escolha. Depois dele, Mélenchon não é mau.”

 

A falta de referências no cenário político é tão grande para os muçulmanos que dois dos principais líderes, Amar Lasfar, presidente da UIOF, e Kamel Kabtane, reitor da Grande Mesquita de Lyon, lançaram apelos na semana passada para que os muçulmanos votem, pelo menos para barrar a chegada de Marine Le Pen ao Palácio do Eliseu. “Nós não aconselhamos o voto. O único conselho é ir votar e sobretudo não se abster”, diz Lasfar, reconhecendo pelo menos uma rejeição. “Nosso dever moral exige que nós denunciemos juntos o perigo da extrema direita e suas ideias.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.