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Internacional

Venezuela

Após dominar Assembleia, oposição venezuelana expõe velhas divergências

Logo após a MUD vencer as eleições, em dezembro, partidos que integram a aliança começaram a manifestar seus desacordos em várias frentes, como por exemplo a escolha do novo presidente do Parlamento, visto como um político ‘obsoleto’

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Ricardo Galhardo ENVIADO ESPECIAL/CARACAS,
O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2016 | 02h00

Formada por 18 grupos e partidos políticos de diferentes matizes ideológicos e também por lideranças com ambições próprias, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão partidária que elegeu no dia 6 de dezembro 112 dos 167 deputados da Assembleia Nacional venezuelana, se equilibra em torno do objetivo estratégico de derrotar o governo do presidente Nicolás Maduro para manter uma unidade algumas vezes marcada pela tensão.

 

Mas, segundo especialistas, esta unidade pode desaparecer caso o objetivo comum seja alcançado. “A oposição é muito diferente, mas está unida frente ao inimigo comum do chavismo. Como se diz em política, o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Uma vez que haja uma saída pacífica para o chavismo a oposição voltará a suas diferentes posições em uma variedade de aspectos”, prevê o analista político José Cordeiro.

Os sinais da tensão que marca a unidade da MUD surgiram ainda no ano passado, pouco depois da vitória nas eleições parlamentares. Candidato duas vezes à presidência, o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, do partido Primero Justicia, criticou publicamente o movimento de rua La Salida, liderado pelo partido Voluntad Popular, de Leopoldo López. “Hoje os que promoviam esta política que fracassou, e sabiam que ia fracassar, são candidatos à Assembleia Nacional, Que bom que mudaram de atitude”, disse Capriles ao Estado em agosto. 

No dia 27, vencidas as eleições parlamentares, López Gil, pai de Leopoldo, deu o troco via redes sociais. “Entre os fracassos nacionais agradeço que ele é só o governador de um Estado que diminuiu nossos votos e não um bravo deputado”, escreveu.

O nível da tensão subiu quando o Primero Justicia se opôs ao nome de Henry Ramos Allup, da Ação Democrática, para a presidência da Assembleia, por considerá-lo um político obsoleto. No dia 4, Ramos Allup acabou batendo por 62 votos a 49 o candidato do Primero Justicia, Júlio Borges. A vitória não impediu que ele voltasse a ser alvo de críticas dos aliados na semana passada, quando decidiu retirar da sede do Congresso imagens de Maduro, do ex-presidente Hugo Chávez e do herói nacional Simón Bolívar. Deputados da MUD criticaram a decisão por considerá-la um ato de hostilidade desnecessário.

As diferenças entre os diversos grupos da oposição também se refletem nas ruas de Caracas. Embora existam outros nomes fortes, como o do ex-prefeito da capital metropolitana Antonio Ledezma, as opiniões se polarizam entre Capriles e Leopoldo López.

 

Com propostas de teor social e um discurso de pacificação nacional, Capriles é o preferido entre os eleitores de centro-esquerda e ex-chavistas descontentes com o governo Maduro e com os rumos da economia.

Já López, preso desde fevereiro de 2014 e condenado a mais de 13 de anos de prisão por liderar um protesto que acabou com 43 mortos, é visto pelos eleitores tradicionais da oposição como uma espécie de mártir da luta contra o regime. 

“Esta vitória nas eleições foi uma reação à situação de crise política, econômica, social e de segurança da Venezuela. Foi mais uma derrota do governo do que uma vitória da oposição. Pesquisas mostram isso. Portanto, além de manter a unidade dos partidos, a MUD precisa manter a unidade do eleitorado”, avalia a cientista política Elsa Cardozo, da Universidade Central da Venezuela.

Candidaturas únicas. Apesar das discordâncias, ambições pessoais e tensões internas, a MUD continua no rumo da unidade. Os integrantes da coligação já confirmaram que vão manter nas eleições estaduais deste ano o pacto de lançar candidatos únicos aos governos locais. Esta estratégia, adotada em 2009 com o mecanismo de “regulação para aplicação de acordos unitários”, é considerada por analistas o pilar do processo de unificação que levou à vitória nas eleições parlamentares. 

“Esta aliança tem permitido manter a unidade na pluralidade. Apesar dessas aspirações pessoais, não há o afloramento de uma divisão, por ora, mas sim a convicção da necessidade de fortalecer a unidade”, disse o ex-chanceler e ex-embaixador da Venezuela no Brasil Milos Alcalay. Mas, em um segundo momento, ele não descarta a possibilidade de uma divisão. 

Os líderes Opositores 

Os históricos 

Entre os mais antigos adversários do chavismo estão personagens ligados, principalmente, aos partidos que dominavam a Venezuela no período pré-Chávez, Ação Democrática e Copei. Entre seus líderes estão o atual presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, e o prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, que foi preso no ano passado, acusado de tentar derrubar Maduro. O principal partido dessa facção dentro da MUD é o Ação Democrática.

Os radicais 

Capitaneados pelo ex-prefeito de Chacao Leopoldo López, preso desde 2014, os radicais ficaram conhecidos ao liderar a campanha “A Saída”, que exigiu a renúncia de Maduro logo após a vitória chavista nas eleições municipais de dezembro de 2013. Os protestos tornaram-se violentos e levaram à morte de 79 pessoas. Outra líder importante dessa facção é a deputada María Corina Machado, cassada no ano passado. O principal partido desse bloco é o Voluntad Popular

Os moderados

A principal figura do grupo dos moderados é o governador de Miranda, Henrique Capriles. Diferentemente do bloco de López, que pede a saída de Maduro, os moderados optaram pela estratégia de concentrar suas críticas na má gestão da economia e em fazer um trabalho de base em comunidades pobres que historicamente votaram no chavismo. Entre nomes importantes ligados a Capriles estão o deputado Julio Borges e o ex-secretário da MUD Ramón Aveledo. A principal legenda desse bloco na coalizão opositora é o Primero Justicia. 

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