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Após queda do EI no Iraque, Mossul renasce das cinzas

Segunda maior cidade iraquiana passou mais de 3 anos sob domínio dos jihadistas, que baniram uso de celular e de instrumentos musicais

Carla Aranha, Especial Para o Estado / Mossul, Iraque, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 06h00

MOSSUL, IRAQUE - O estádio da Universidade de Mossul, no norte do Iraque, quase veio abaixo no show do músico iraquiano Naseer Shamma, durante o Festival da Paz, realizado em outubro. Considerado um dos melhores violonistas do mundo, Naseer não colocava os pés na cidade hámuito tempo. Há anos os moradores também não assistiam a um concerto - peça de teatro, dança ou qualquer outra atividade artística.

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Segunda maior cidade do Iraque, Mossul foi dominada pelo Estado Islâmico (EI) em 2014 - os extremistas proibiram desde atividades corriqueiras, como usar o celular, até tocar instrumento musical e fumar. Execuções sumárias ocorriam em praça pública. “Foi uma época de terror, em que muita gente tinha medo de sair de casa”, diz Ali al-Baroodi, professor de inglês na Universidade de Mossul. Libertada há seis meses pelo Exército iraquiano e pela coalizão liderada pelos EUA, a cidade começa a renascer.

Voluntários se mobilizaram nos últimos meses para promover festivais de literatura, música e fotografia. Foi lançada uma campanha para resgatar os livros da biblioteca da Universidade de Mossul, incendiada pelos jihadistas. Os estudantes conseguiram recuperar mais de 30 mil exemplares, que passaram por um processo de limpeza e seguiram para locais seguros.

No dia 30 de novembro, uma maratona reuniu 4 mil corredores nas ruas da cidade. O governo iraquiano, com ajuda internacional, está investindo pesado na reconstrução de escolas, hospitais e da infraestrutura de serviços, como o fornecimento de água e de eletricidade.

Após longo tempo, a cidade também voltou a celebrar o Natal. Pela primeira vez em três anos, árvores natalinas e bonecos de Papai Noel voltaram a enfeitar ruas e lojas. Antes da invasão do EI, pelo menos 400 mil cristãos viviam na região. A maioria, no entanto, migrou para outras partes do país e para o exterior quando os jihadistas invadiram a cidade.

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Em Mossul, cerca de 1 milhão de pessoas ficaram desalojadas durante a batalha para a retomada da cidade, que durou nove meses e matou mais de 40 mil civis. A zona leste, a mais antiga, foi bastante atingida - os extremistas transformaram a área, repleta de alamedas estreitas, em seu quartel-general. Centenas de bombas e morteiros foram lançados no local. De acordo com as Nações Unidas, pelo menos 60 mil casas foram destruídas.

Até agora, 193 mil pessoas se reinstalaram em Mossul. Em sua maioria, moradores da zona oeste da cidade, menos prejudicada pelos bombardeios. Na parte leste, a situação continua alarmante. “Houve um nível de destruição ali sem precedentes em áreas urbanas”, afirma Lise Grande, chefe do programa das Nações Unidas para a reconstrução do Iraque.

A Universidade de Mossul, considerada uma das melhores do Oriente Médio, voltou a funcionar - os cerca de 30 mil alunos dos cursos de medicina, engenharia, letras e artes voltaram a frequentar as aulas em outubro. Um deles é Aws Ibrahim, que estuda geologia. Durante o tempo em que a faculdade esteve fechada, por imposição do EI, ele aproveitou para estudar inglês em casa, por conta própria. “Lutamos por muito tempo para que nosso espírito não fosse destruído, porque aí os extremistas teriam vencido.”

Ibrahim também participou ativamente do movimento para a recuperação dos livros da biblioteca da universidade e da organização do Festival da Paz. Um de seus amigos, o músico Khaled Walled, exerce um outro tipo de ativismo. Ele se apresenta, junto com sua banda, a Awtar Nergal, em locais públicos, em uma tentativa de elevar o espírito dos moradores. “Foram nove meses de bombardeios e mortes”, diz. “A música pode ajudar no processo de cura.”

Durante o domínio do EI, músicos ensaiavam escondido, dentro de casa e com as cortinas fechadas, para não despertar a atenção da polícia jihadista, que patrulhava as ruas. Há alguns meses, Walled escreveu e dirigiu um teatro de marionetes para crianças. A apresentação aconteceu em um espaço às margens do Rio Tigre. “Queria muito ter assistido”, diz a adolescente Aisha Salih, de 14 anos. Desde abril, a menina mora com sua família em um campo de refugiados a 25 quilômetros de Mossul.

Seu pai, o policial Hamed, temia ser perseguido e morto pelo EI, que atacava especialmente as forças de segurança. Para não ser pego, ele se escondeu em casas de amigos e parentes. “Permanecia pouco tempo em cada casa. Às vezes, só um ou dois dias, para não levantar suspeitas.”

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Sua mulher e os cinco filhos preferiram ficar na casa do sogro. Quando começou a guerra pela retomada de Mossul, Hamed reuniu a família e todos foram para o campo Khazer, da ONU. “Pelo menos ficamos protegidos, longe dos terroristas e das bombas”, diz. Agora, eles pretendem voltar.

Apesar de o governo iraquiano ter declarado, no início do mês, o fim da luta contra o EI, ainda restam alguns insurgentes na região de Mossul e em outros locais. Barreiras militares dentro dos bairros fiscalizam os carros e os pedestres. Os moradores muitas vezes têm dificuldade para cruzar esses pontos de checagem.

Ainda pesa sobre eles o estigma da dominação jihadista - os extremistas consideravam Mossul a capital de seu autoproclamado califado. As atrocidades e destruição provocadas pelos jihadistas ainda repercutem. Só na região de Mossul, os combatentes colocaram abaixo, com marretadas e explosivos, monumentos e mesquitas históricas como a Al-Nuri, no centro da cidade, e a do profeta Jonas, reverenciado por muçulmanos, cristãos e judeus.

No início do ano, as forças militares encontraram nos subterrâneos da mesquita de Jonas um complexo de túneis, cavado pelo EI como rota de fuga. Pouco depois, arqueólogos descobriram no local um palácio de mais de 2.500 anos do Império Assírio, uma dos mais importantes da Antiguidade.

“Há estátuas e alto relevos raríssimos, prontos para serem estudados”, diz a arqueóloga iraquiana Layla Salih. Os especialistas aguardam a liberação de autoridades para explorar o tesouro. “A descoberta mostra que podemos renascer das cinzas, talvez ainda melhores e mais fortes do que quando entramos no período de trevas.”

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