REUTERS/Pilar Olivares
REUTERS/Pilar Olivares

Após soltar Fujimori, presidente do Peru perde aliados e depende de rivais

Kuczynski enfrenta deserções em seu partido, o afastamento da esquerda radical que o apoiou e marchas que pedem sua renúncia; para estabilizar o país, ele precisa de deputados que há uma semana tentaram derrubá-lo por receber dinheiro da Odebrecht

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2017 | 05h00

Menos de uma semana depois de escapar no Congresso de um processo de destituição, o presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, perdeu ainda mais capital político com o indulto concedido ao ex-presidente Alberto Fujimori no Natal. Ameaçado por protestos de ruas de setores contrários à libertação, ele agora depende de uma difícil aliança com a dividida bancada fujimorista para manter-se no cargo.

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Ontem, Kuczynski defendeu o indulto como uma clemência a um homem doente, depois que protestos de médio porte ocorreram pelo segundo dia seguido em Lima. Dirigindo-se aos peruanos pela primeira vez após perdoar Fujimori na véspera do Natal, PPK, como é conhecido o presidente, pediu que aqueles que estavam protestando contra sua decisão “virassem a página”.

“Estou convencido que aqueles que são democratas não devem permitir que Alberto Fujimori morra na prisão, porque justiça não é vingança”, disse o presidente. “Foi a decisão mais difícil da minha vida.”

Desde a libertação de Fujimori, três deputados do partido de Kuczynski, o Peruanos Por el Kambio, deixaram a legenda, que tinha apenas 18 parlamentares no Congresso de 130 assentos. Analistas creem que uma reforma ministerial nos próximos dias é provável, em mais uma tentativa do presidente de recuperar a estabilidade do governo. 

“Kuczynski perdeu o respaldo da maior parte de seus apoiadores políticos depois do indulto e não conseguiu explicar de maneira satisfatória o perdão à parcela antifujimorista da população”, disse ao Estado o analista político José Carlos Requena, da consultoria 50+1. “Na semana passada ele se defendeu com uma retórica fujimorista e agora depende dos que há poucos dias o consideravam moralmente incapaz.”

“Com as manifestações de rua, ele está bastante pressionado. Mas se ele conseguir sobreviver a isso, pode governar com apoio de parte da bancada fujimorista”, disse ao Estado o analista político Francisco Belaunde Matossian. 

Abstenções

Na votação de quinta-feira sobre a destituição de PPK, a abstenção de Kenji Fujimori – filho mais novo do ex-presidente – e outros nove deputados do partido Fuerza Popular evitou que o presidente deixasse o cargo. Kenji foi contrário à orientação da legenda, comandada por sua irmã, Keiko, de tirar Kuczynski do poder. 

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Deputados do partido, favoráveis e contrários a PPK, atribuíram as abstenções a um acordo pela libertação do ex-presidente, que efetivamente ocorreu na véspera de Natal. Oficialmente, a justificativa dada para a soltura foi o estado de saúde frágil do ex-ditador. 

Com isso, dizem analistas, Kuczynski deu razão aos que o acusavam de mentir para manter-se no cargo. “A credibilidade do presidente está no chão. Ele negou ter recebido dinheiro da Odebrecht e descobriu-se que prestou uma consultoria à empresa quando era funcionário público”, acrescentou Belaunde. “Agora, libertou Fujimori depois de ter negado que o faria em diversas oportunidades. Com essa perda de credibilidade, ele está ainda mais frágil do que estava na semana passada.”

Desculpas

Fujimori publicou um vídeo em suas redes sociais no qual pediu perdão sobre os abusos que cometeu quando governou o Peru, entre 1990 e 2000. “Estou consciente de que os resultados durante meu governo por uma parte foram bem recebidos, mas reconheço que desapontaram outros compatriotas. A eles peço perdão de todo coração”, afirmou Fujimori, de 79 anos, internado em uma clínica por problemas circulatórios, em um vídeo postado no Facebook.

A primeira manifestação contra o indulto reuniu pelo menos 5 mil pessoas em Lima. Eles exigiram a renúncia de Kuczynski. “Fora, fora PPK!”, gritavam os manifestantes. A polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar o protesto e evitar que os manifestantes caminhassem até a clínica em que Fujimori está internado. Outro protesto está marcado para amanhã, em Lima. 

Fujimori cumpriu 12 anos de uma pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade no combate a guerrilhas de esquerda, e também por corrupção. /COM AFP

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