Após URSS, distância para o sul cresceu

País ocupa o 178º lugar, entre 179 países, no ranking da liberdade de imprensa; Coreia do Sul está em 50º

Felipe Corazza, enviado especial / Pyongyang, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2013 | 02h01

Desde a derrocada do bloco soviético no início da década de 1990, os norte-coreanos se acostumaram a uma vida ainda mais dura. Roupas e uniformes, antes fornecidos pelo governo anualmente, passaram a ser apenas parcialmente subsidiados. Alimentos foram cortados para o "essencial". Os salários, que o governo diz ficarem no equivalente a US$ 200, em média, custeiam o restante.

A moradia ainda é fornecida pelo Estado, com pagamento somente das despesas de água e eletricidade - em média, 10% do salário. Transportes públicos e escolas são totalmente subsidiados. Na capital, Pyongyang, no entanto, símbolos de riqueza podem ser vistos. Principalmente, carros de luxo. Comprados por autoridades no mercado chinês, modelos alemães e americanos circulam entre os mais velhos, soviéticos, ônibus japoneses da década de 60 e o meio de transporte mais comum, a bicicleta.

Um veículo na única fábrica nacional de automóveis, a Pyong Hua, custa menos que os importados. Ainda assim, é um preço alto para o salário médio de Pyongyang, e certamente muito mais do que os camponeses podem sonhar em pagar. Um sedã médio da Pyong Hua custa cerca de US$ 15 mil.

Investimentos. Se o governo não pode garantir casa própria a toda a população, não quer dizer que não invista no setor de moradia, pelo menos a dos grandes personagens. Uma das maiores novidades apresentadas para a celebração dos 60 anos do armistício com a Coreia do Sul foi a inauguração de um novo cemitério para os heróis norte-coreano. O líder Kim Jong-un participou da cerimônia no Cemitério dos Mártires do Exército Popular da Coreia, na capital, Pyongyang. O governo transferiu os restos mortais de heróis de combate para o local. Parentes dos soldados mortos participaram do ato.

O memorial, inaugurado por Kim na quinta-feira tem como escultura principal uma baioneta gigante, coberta pela bandeira vermelha e com uma medalha de honra em destaque e é reservado apenas a celebridades póstumas. Os cidadãos comuns - que vivem 10 anos em média a menos que os do sul - tem o sepultamento subsidiado pelo Estado, mas em cemitérios comuns.

Outras estátuas de cenas de combate compõem o quadro do novo monumento ao sopé de uma pequena montanha na capital. Uma das estátuas é do herói de guerra Kang Ho- yong, um dos mais destacados entre os soldados mais célebres.

A história de Kang, morto em combate no ano de 1951, é contada com orgulho pela irmã do combatente, presente à cerimônia. Seu irmão ganhou notoriedade por ter perdido os movimentos dos braços no conflito e, depois disso, passado a usar a boca para atirar em uma metralhadora adaptada.

Ao Estado, Kang Ok-dan, irmã de Yong, disse que seu irmão era "muito carinhoso" com ela. Logo depois, pede com veemência que a Coreia do Norte se vingue "de todas as maneiras possíveis" da "agressão dos Estados Unidos". Filhos de um veterano piloto de combate, Li Guang-il e Li Guang-wal agradecem, diante do novo túmulo do pai, a homenagem "prestada pelo querido líder". "Nosso pai afundou um destróier do inimigo. Foi um herói da república", celebra Li Guang Il.

Outro piloto, este do lado inimigo, participou da inauguração do cemitério. O americano Thomas Hudner, que sobrevoou a Coreia do Norte em seu avião militar nos anos da guerra, estava ao lado dos parentes dos heróis norte-coreanos. "É uma ocasião muito especial. Como veterano americano, fico grato por ver que nosso antigo inimigo também compartilha sentimentos em comum."

Meses atrás, uma escalada de tensão com a Coreia do Sul incluiu ameaças de ataques nucleares a bases americanas e Kim Jong-un cancelou o armistício assinado com Seul. O episódio não levou à retomada das hostilidades de fato, mas voltou a espalhar tensão pela Península Coreana. A Coreia do Norte também fechou o acesso de trabalhadores do Sul ao complexo industrial de Kaesong, único projeto conjunto de grande porte entre os países beligerantes, que fica em território norte-coreano. Embora seja mais pobre, proporcionalmente o Norte investe mais em armamento.

Um novo cessar-fogo ainda não foi negociado. Na quinta-feira, uma tentativa de acerto para a reabertura de Kaesong fracassou. Os negociadores divergem sobre quem deve conduzir o processo e a Coreia do Norte ameaçou posicionar seus militares na área.

Liberdade de expressão. Editado em inglês e distribuído aos passageiros dos voos da Air Koryo, o jornal The Pyongyang Times é a primeira voz do regime para os que chegam de fora. Em oito páginas, o semanário trata de temas políticos, econômicos e de costumes, além de atualizar sobre os feitos de Kim Jong-un.

Na edição n.º 29, a manchete é "Kim Jong-un inspeciona diferentes setores". A reportagem principal trata essencialmente das visitas feitas pelo secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia ao museu em homenagem à Guerra da Coreia e a um depósito de cogumelos. O museu foi criado para as celebrações dos 60 anos da autoproclamada vitória norte-coreana no conflito.

Na economia, além de Kim Jong-un na estufa de cogumelos, o Pyongyang Times exalta o sucesso das plantações de grama em áreas de solo pouco promissor. Para notícias sobre os vizinhos e inimigos, o jornal dedica a seção O Que Acontece na Coreia do sul (usando o "Sul" em minúscula todo o tempo). O noticiário fala de crimes em ascensão, escândalos de governo e dá destaque a pequenas marchas estudantis contra a presença de tropas americanas.

Sobre o navio norte-coreano Chong Chong Gang, detido no Canal do Panamá após uma inspeção encontrar armamentos cubanos escondidos em uma carga de açúcar, o jornal apenas reafirma que as armas seriam levadas até a Coreia do Norte para serem reparadas e, em seguida, devolvidas a Havana.

Os norte-coreanos atribuem a apreensão da carga e a detenção do navio e sua tripulação à "influência americana" e defendem que tanto o transporte quanto o reparo das armas fazem parte de um acordo legal entre Cuba e a Coreia do Norte. No jornal, um resumo da notícia sobre a embarcação acusa as autoridades panamenhas de terem usado as armas como "desculpa" para a confusão, depois de entrarem no navio sob pretexto de uma suspeita de que havia um carregamento de drogas a bordo.

O caso do navio norte-coreano apreendido com uma carga de armas cubanas no Panamá ganhou destaque no mundo, com exceção da própria Coreia do Norte. A primeira notícia nos jornais locais veio com duas semanas de atraso, já com a resposta do líder Kim Jong-un. O país é um dos que mais limita o acesso à internet.

Um ponto, no entanto, consegue romper a barreira do regime e manter assuntos recentes em algumas conversas: o futebol. Depois de algumas tentativas sobre assuntos políticos, sem resposta, a reportagem do Estado ouviu respostas completas e empolgadas quando o assunto foi a seleção brasileira. "Neymar, Kaká e Dani Alves" são os primeiros nomes que vêm à cabeça de Ri Dae-ryong, um jovem de 21 anos que trabalha para o Ministério de Relações Exteriores norte-coreano. Em seguida, Ri comenta dois jogos da Copa das Confederações - a vitória da Itália contra o Japão e a final entre Brasil e Espanha.

Jogos de campeonatos diversos são transmitidos por um dos três canais da TV norte-coreana. Os outros canais - dois - são reservados a notícias e programas educativos.

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