Manu Brabo/AP
Manu Brabo/AP

Aquecimento global e imigração

Se a temperatura aumentar como muitos meteorologistas preveem, número de pedidos de asilo na Europa deve se multiplicar

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2017 | 05h00

E se a temperatura subir 4,5 graus até o final deste século, como preveem alguns meteorologistas, o que seria dos migrantes? Bem, eles se multiplicariam. 

Um trabalho da Columbia University com base em dezenas de estatísticas cruzadas mostra que a temperatura do globo tem um efeito automático sobre os fluxos migratórios. O número que garantiria a estabilidade é de 20 graus. Mas caso a temperatura suba acima desse número médio, ou diminua, é seguida de movimentos populacionais. Esses movimentos serão muito mais violentos e devastadores no caso de um aumento de temperatura do que na redução.

Pesquisadores da Columbia tomam o exemplo de um aumento de 4,5 graus: os pedidos de asilo passariam de 188% daqui até 2.100. Isso significa que a Europa receberia 680 mil casos a mais por ano do que no período de 2.000 a 2.014.

Ou, um dia desses, nós poderíamos tomar consciência da devastação que o fluxo de migrantes representa para a Europa: a União Europeia ameaçada de paralisia ou divisão, a revolta dos países do Leste (Hungria, Polônia, República Checa, Eslováquia e Áustria atual) que rejeitam a entrada dos que pedem asilo ou, mais radicalmente, erguendo muros “contra migrantes” nas suas fronteiras, e a Grã-Bretanha optando por deixar a União Europeia pelo Brexit, Madame Merkel contestada em toda sua onipotência porque acolheu generosamente, delirantemente, em 2015, 1 milhão de migrantes. E em todos os lugares o retorno das ideologias populistas, entre fascismo e nazismo.

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A verdade é que a entrada de migrantes já fragilizou todos os países da Europa e corre o risco de fazer explodir a União Europeia. O que acontecerá se o número de pedidos de asilo aumentar em 188%, como afirma o estudo da Columbia? Revoltas, motins, movimentos extremistas? Massacres de migrantes? O Mar Mediterrâneo como um vasto cemitério? Ruínas? Massacres de migrantes por grupos de justiceiros? Uma nova Idade Média? As religiões tornando-se alucinadas? Crises alimentares? Isso sem falar das áreas costeiras dos países europeus já ameaçadas pelas águas em ascensão.

O perigo bate nas portas desta época. Mais algumas décadas e a Europa enfrentará um dos mais misteriosos desafios de sua história. A menos que os planos desenvolvidos nas conferências climáticas não tragam resultados e o calor não passe do aumento de 2% até 2.100. Mas quem acredita nessa promessa, depois que o líder mundial entre os poluidores, Donald Trump, recebe com escárnio e resmungos os alarmes dos cientistas?

Desde já, um dos escudos que a Europa pensava encontrar para combater a proliferação de migrantes, tornou-se irrelevante. Os governos fazem uma clara diferença entre “bons imigrantes” e “maus imigrantes”. Os “bons” são os “políticos”, aqueles que deixam o Oriente ou a África porque provavelmente morrerão lá. Os “maus imigrantes” são aqueles que vão à Europa para viver melhor do que em seu país de origem. 

Na realidade, essa distinção é incerta: homens que enfrentam morte, afogamento e tormento, por dois anos, três anos, para serem tratados como cães, seriam eles “caprichosos”, trapaceiros que mal e mal fazem uma “caminhada saudável”?

Em 2.015, 3.700 pessoas morreram atravessando o Mar Mediterrâneo. Eles foram “bons afogados” (políticos) ou “maus afogados” (econômicos)?

Segundo o especialista europeu François Gemenne, “metade da população africana obtém a parte fundamental da sua renda na agricultura de subsistência”. Ela é muito vulnerável às mudanças climáticas. Em outras palavras, aqueles que são chamados de migrantes “econômicos” são igualmente migrantes “climáticos”.

A distinção entre “bons migrantes” e “maus migrantes” perderia então o pouco de razão que afirma ter.

Devemos esperar que a revelação da universidade nova-iorquina, desses dados assustadores, tenha um efeito benéfico e leve um pouco de juízo ao cérebro ou ao coração encarquilhado dos políticos? François Gemenne responde: “essa situação tem dois gumes. Pode conduzir à ação ou, pelo contrário, assustar os governos e levá-los a fortificar suas fronteiras”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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