EFE/Carsten Koall
EFE/Carsten Koall

Ar fresco na Europa

As ideias de Macron de criar um orçamento europeu podem não encantar Berlim

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 05h00

Recém-empossado, o novo presidente da França voou para Berlim, onde foi recebido pela chanceler Angela Merkel. A alemã já está acostumada. No poder desde 2005, viu desfilar um cortejo de presidentes franceses, começando com Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy e continuando com François Hollande. Agora é a vez do jovem Emmanuel Macron, de 39 anos.

A viagem a Berlim é um ritual de todo novo presidente da França. Os dois países, que se esquartejaram em três guerras abomináveis (1870, 1914 e 1939), dominam a Europa continental. Têm uma longa fronteira comum e ligações comerciais proveitosas. A construção europeia cristalizou-se em volta da dupla franco-alemã. A forte amizade entre os dois países garantiu a sobrevivência da União Europeia.

Por isso tudo, Merkel acompanhou com entusiasmo a eleição presidencial francesa. A poderosa Marine Le Pen e o eloquente Jean-Luc Mélenchon anunciavam que, se eleitos, deixariam a UE, o que, um ano após o Brexit, feriria de morte a Europa. Mas Merkel teve sorte: o único verdadeiro parceiro francês da UE, Macron, venceu. Vai ser possível pôr para andar de novo o velho calhambeque europeu.

A alegria de Merkel foi ainda mais completa porque este mesmo domingo, 14 de maio, lhe trouxe um novo sopro de esperança. Os alemães votaram nas eleições regionais da Renânia do Norte-Vestfália. Esse voto é de capital importância, pois em setembro ocorrerão as eleições legislativas. O SPD (socialista) indicou um candidato, Martin Shulz, que parecia capaz de derrotar a CDU de Merkel. 

Uma vitória socialista na Renânia do Norte-Vestfália, a região mais populosa da Alemanha, teria feito soar o alarme nas hostes de Merkel. Mas isso não ocorrerá: os socialistas recuaram 8 pontos e a CDU avançou 8. Merkel tem toda chance de conquistar um quarto mandato, uma grande proeza.

Será que vamos assistir ao renascimento da dupla franco-alemã, abandonada nos desastrosos mandatos de Sarkozy e Hollande? Talvez. Mas Merkel não mostra nenhuma inclinação a se render incondicionalmente à impetuosidade e talento do jovem francês. “É preciso esperar para conhecer os projetos e desejos de Macron”, disse Merkel. “Depois, buscaremos os pontos comuns.”

Como explicar esse entusiasmo verdadeiro, mas ao mesmo tempo frio, refletido, racional? Seria a reação de uma velha rainha que vê se lançar a seus pés um jovem ambicioso, cheio de charme e muito simpático, mas um pouco cabeça nas nuvens, que poderia ter a lamentável ideia de se impor à “herdeira” da Europa? É melhor esperar, pois, um sorriso e uma reguada nos dedos...

Mas talvez Merkel se contente em ser apenas Merkel, uma governante notável, mas prudente, que pensa longamente antes de se atirar a empreendimentos de risco.

Macron desembainhou a espada, mas suas ideias de criar um “orçamento europeu” ou cavar empréstimos europeus, por exemplo, não parecem encantar os círculos de Berlim. É claro que uma Europa remodelada por Macron teria um look mais sedutor, mais fresco, mais audacioso que a velha Europa na qual Merkel hiberna há 15 anos. Mas ainda falta essas reformas serem bem planejadas e bem conduzidas.

Talvez incumbido de dizer em alto e bom som o que a chancelaria pensa em silêncio, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble, afirmou no jornal Frankfurter Allgemeine que as ideias de Macron sobre a reforma da zona do euro são “politicamente irrealistas”. É esperar para ver. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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