Argentina agora busca blindagem política

Depois do anúncio desta quinta-feira dos detalhes da megatroca de bônus de curto prazo por outros de longo prazo, o governo do presidente Fernando de la Rúa começa a armar uma "blindagem política". A idéia é que quando o ministro da Economia, Domingo Cavallo, chegue à Nova York na quarta-feira para apresentar os detalhes da megatroca de bônus, ele esteja acompanhado por governadores de algumas das províncias controladas pelo Partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição. O peronismo domina as principais e mais ricas províncias do país. Desta forma, o governo pretende dar sinais de que possui o respaldo da oposição, e que o país entraria em uma espécie de "trégua política" por alguns meses, que permita a recuperação econômica. Cavallo iria acompanhado de José dela Sota, o governador de Córdoba, e Carlos Reutemann, de Santa Fe, entre outros. Simultaneamente, o governo tenta compor um acordo de "pacificação" com a Confederação Geral do Trabalho (CGT) oficial e diversos setores do peronismo. A oposição, em troca do acordo, estaria pedindo redução em alguns impostos. Também se especula que seriam concedidos alguns ministérios a figuras do peronismo. Nesta sexta-feira, após as comemorações do dia da Revolução de Maio de 1810, que deu origem à independência seis anos depois, o presidente De la Rúa declarou que "já estão aparecendo indícios de recuperação econômica. Mas me preocupam os pessimistas que podem acabar com esses sinais positivos". Após o anúncio da megatroca, os analistas foram cautelosos com a operação. Grande parte deles compara a Argentina a um doente para quem a megatroca de bônus será uma transfusão para ajudá-lo a sair da UTI e salvar-se da morte. No entanto, consideram que, para evitar que o paciente tenha recaídas, é preciso continuar cuidando da saúde. O diretor-gerente da Goldman Sachs, Jorge Mariscal, afirmou que a megatroca "é uma parte, mas não a totalidade das medidas de que o país precisa. É necessário um esforço adicional para fazer cortes orçamentários e reduzir a máquina estatal". Segundo a consultoria Ecolatina, a megatroca implicará calma por alguns anos, "mas depois poderá reaparecer a incerteza sobre solvência fiscal". Ela sustenta que no ano 2003 poderia haver um retorno à atual situação: "Preferíamos uma troca de bônus mais negociada e menos condicionada pelos desejos do mercado". Para o ex-presidente da Bolsa de Valores de Buenos Aires, Luis Corsiglia, "a megatroca implicará uma grande exigência para melhorar a área fiscal". O economista Orlando Ferreres acha que a operação será boa para o país, mas disse que as taxas de juros poderão ser "um pouco altas". O gerente-geral do Banco Credicoop, Carlos Heller, afirmou que, se a economia do país não crescer, a dívida se tornará "impagável" mais uma vez. O hipercinético ministro Cavallo começará uma semana na qual somente dormirá a bordo de aviões. O ministro partirá neste domingo à noite para Madri, onde se reunirá na segunda-feira com o ministro da Economia, Rodrigo Rato. Nessa mesma noite Cavallo viajará para Londres. Na capital britânica se reunirá com investidores. Neste mesmo dia o ministro partirá para Nova York, onde, na quarta-feira apresentará os detalhes da megatroca de bônus. Dali, voltará para a Europa, onde na quinta-feira em Munique participará da VI Conferência Latino-Americana de Economia, do Fórum Livre Comércio no Mercosul. Depois, se reunirá com o ministro alemão da Economia, Werner Müller, e participará de almoço com a Federação Industrial Alemã. Na sexta-feira, Cavallo mudará mais uma vez de continente, para desembarcar em Hong Kong, onde apresentará sua megatroca de bônus durante um almoço no Instituto Internacional de Finanças. "Meu marido quase não dorme pensando nos problemas do país", explicou há poucas semanas sua mulher, Sônia Cavallo. O governo conseguiu um acordo com os três mil desempregados que há mais de duas semanas realizavam um megapiquete na principal estrada que corta a cidade de La Matanza, o maior município da Grande Buenos Aires e um dos mais empobrecidos. No entanto, o sucesso desses piqueteiros entusiasmou os desempregados que realizam piquetes nas estradas das províncias de Rio Negro e Misiones. Nas províncias de La Rioja, Mendoza e Jujuy, milhares de pessoas sem trabalho ameaçam começar piquetes caso o governo não lhes consiga trabalho e comida. Nestes casos, além dos desempregados estão envolvidos nos protestos produtores de vinho e erva-mate à beira da falência. A recessão que já dura 35 meses continua atingindo o comércio argentino. Segundo os analistas, os consumidores estão assustados com as elevadas taxas de risco do país, índice que a crise tornou tema de conversas cotidianas. Além disso, os "impostaços" criados pelo ministro Cavallo também tiveram efeitos de arrocho nos bolsos da classe média e alta. Segundo o Instituto de Estatísticas e Censos (Indec), os supermercados tiveram uma queda de 3,4% nas vendas em abril, em relação ao mesmo mês do ano anterior, e de 3,7%, comparando-se a março deste ano. Os shopppings também estão sofrendo os efeitos da recessão. Segundo o Indec, a queda em abril foi de 13,4% em relação ao mesmo mês de 2000. No entanto, em relação a março deste ano, a redução foi de somente 0,7%.

Agencia Estado,

25 Maio 2001 | 19h14

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