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Armas, lágrimas e republicanos

Não é vergonha um presidente chorar quando seu país tem 32 mil mortes anuais por armas

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Nicholas Kristof, The New York Times,
O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2016 | 06h07

O presidente Obama chorou ao defender na terça-feira novas medidas para segurança sobre armas, no que alguns críticos viram fraqueza ou vacilo. É mesmo? Ao contrário: deveríamos estar todos em lágrimas pelos 225 mil americanos mortos por armas de fogo nos 7 anos de Obama no cargo.

Vergonha não é um presidente chorar um pouco, mas o fato de ele não ter conseguido impedir que morressem nos Estados Unidos, por armas de fogo, mais ou menos tanta gente quanto o número de mortos na guerra civil da Síria (onde as estimativas vão de 200 mil a 300 mil). Sim, a cifra nos EUA inclui suicidas, e sim, a Síria é um país menor. Mas é digno de pranto que uma América “em paz” tenha perdido durante a gestão Obama tantas vidas quanto a Síria em guerra civil.

Ted Cruz respondeu às ações executivas do presidente com uma página na web mostrando um irado Obama, de capacete, lembrando um valentão prestes a invadir uma casa, com a advertência: “Obama quer suas armas”. Chris Christie disse que o presidente está agindo como “uma criança petulante”. Jeb Bush criticou a “agenda pega-arma” de Obama. Donald Trump advertiu que o presidente caminha para o banimento de armas. O resultado desse alarmismo será mais americanos correndo para comprar armas de fogo.

Vamos admitir que os liberais não venham abordando bem a questão das armas através dos anos. Eles frequentemente antagonizam proprietários de armas, falando num tom superior ou partindo para o insulto. Também costumam desconhecer as armas que querem ver regulamentadas. Mas, quando a questão básica é se as armas de fogo trazem mais segurança ou mais risco, a evidência parece clara: embora a maioria dos possuidores as usem com responsabilidade, com mais armas ocorrem mais tragédias.

Excluam-se as armas, os EUA têm um índice de crimes violentos semelhante ao de outros países ricos. Mas, como temos 300 milhões de armas de fogo rolando por aí, algumas em mãos de indivíduos de alto risco, nossa taxa de homicídios com armas é 20 vezes a da Austrália (que fez ofensiva contra armas após um assassinato em massa).

Defensores de armas dizem que os criminosos sempre as terão, não importando leis restritivas. Mas as evidências cada vez maiores são de que isso não seja verdade.

Os Estados com as leis mais restritivas têm a menor taxa de mortes por armas (incluindo suicídios). Tomemos Massachusetts e Nova York, que têm algumas das leis antiarmas mais duras dos EUA. Nesses Estados, a taxa de mortes por armas de fogo é de 3 a 4 em cada 100 mil habitantes por ano. No outro extremo, dois dos Estados com as leis mais permissivas são Alasca e Louisiana. Em ambos Estados as taxas são 5 vezes mais altas: mais de 19 mortes por 100 mil habitantes.

Candidatos presidenciais republicanos deveriam olhar para o que aconteceu quando o Missouri abrandou as restrições para a compra de armas pessoais. O resultado foi um aumento de 25% na taxa de homicídios com armas de fogo, segundo o Journal of Urban Health.

Em contraste, quando Connecticut endureceu a regulamentação para compra a taxa de homicídios caiu 40%, de acordo com o mesmo jornal.

Isso não quer dizer que a regulamentação funcione sempre, ou que resolver o problema seja simples. Daniel W. Webster, da Universidade Johns Hopkins, cita uma pesquisa segundo a qual apreender armas de pessoas com histórico de violência doméstica não faz muita diferença. Mas impedir o acesso a armas por pessoas sujeitas a restrição por violência doméstica reduz a mortandade de parceiros.

Precisamos de uma abordagem com base em evidências de saúde pública, nos moldes da bem-sucedida regulamentação de carros na redução de mortes em acidentes automobilísticos. É isso que as ações executivas de Obama buscam. Há anos os republicanos dizem que devemos nos concentrar em pôr em prática as leis existentes. É o que Obama está fazendo.

Obama também pressiona para se pesquisar a viabilidade de armas inteligentes que só atirem com determinada impressão digital ou com código de identificação. Pode ou não funcionar, mas num país onde 300 mil armas são roubadas anualmente, vale tentar. A cada semana, em média, um garotinho atira em alguém nos EUA porque armas são fáceis de pegar e disparar. Se nossos celulares podem ser feitos para operar só com senha, é loucura que alguém possa usar um fuzil de assalto roubado.

Não há varinha mágica que resolva a violência armada nos EUA, mas também não precisa ser imutável que 32 mil americanos morram anualmente por armas de fogo. Sabemos, por experiências em Estados como Connecticut e Missouri, que leis sensatas salvam vidas. Por que, então, não proibir o acesso a armas a homens sujeitos a restrição por violência doméstica, se o resultado são menos mulheres mortas por namorados rejeitados?

Nessa discussão, os candidatos presidenciais republicanos estão no lado errado da história. Enquanto, segundo pesquisas, mesmo os eleitores republicanos apoiam em massa medidas de bom senso, como controle de antecedentes, os candidatos do partido politizam o que deveria ser uma questão de saúde pública. Assustados, os americanos compram mais armas, o que aumenta o problema e causa mais carnificina. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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