ludovic Marin/AFP
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Artigo: Conservadorismo europeu

Muitos na UE querem aperfeiçoar o bloco, mas não redesenhá-lo completamente, como muitos insistem

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 05h00

“Por que eles falam tanto?”, perguntou um indiano sobre um grupo de líderes europeus que visitava Nova Délhi. De fato, por quê? Palavras sempre superam ações em política, mas em nenhum lugar mais que na União Europeia. Assim, aí vai uma proposta: que no próximo encontro, nossos líderes declarem o Ano Europeu do Silêncio. Aí, no Natal de 2018, eles poderão apresentar um relatório sobre o que produziram. 

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Caso você não tenha percebido, a UE vem declarando anos europeus desde 1983 – começando com o empolgante Ano Europeu das PMEs e do Artesanato, continuando com o inesquecível Ano Europeu da Segurança Rodoviária, Ano Europeu do Envelhecimento Ativo.

E não se trata apenas de os líderes da UE abusarem do palavreado e prometerem mais do que entregam. Por exemplo, a Estratégia de Lisboa, lançada em 2000, queria fazer da Europa a mais competitiva e dinâmica economia do mundo até 2010. Diante desse abismo entre retórica e realidade, os cidadãos europeus bocejam de tédio.

Mas, acima de tudo, o que esses discursos, panfletos e manifestos têm em comum é uma ansiedade, ainda que utópica, de que no futuro a UE seja alguma coisa lógica, consistente, clara e bem arrumada como os jardins de Versalhes. Daí as eternas conversações sobre arquitetura europeia. 

Em seu manifesto intitulado Révolution, o presidente francês, Emmanuel Macron, anteviu uma grande rodada de consultas entre todos os membros da UE no próximo ano, o que resultará em um só plano para a Europa. É justamente do que a Europa precisa: outro plano. 

O líder social-democrata alemão, Martin Schulz, vai mais longe e afirma que precisamos de uns Estados Unidos da Europa “no máximo até 2025”. Os países-membros que não assinarem o tratado de fundação devem simplesmente sair da UE! Alguém aposta nisso?

Políticos e teóricos estão certos ao diagnosticar uma “crise múltipla” no projeto europeu e a urgência de se responder a ela. Mas, quando se examina em detalhes as reformas por eles propostas, conclui-se que elas são complexas e exigem respostas pontuais, mas se elas vierem da fábrica de salsichas que é o centro de decisões da UE, as ações resultantes serão ainda mais complexas e fragmentadas.

É significativo Schulz dizer que o “fator básico” das negociações para integrar uma coalizão com a chanceler Angela Merkel será “dar uma resposta positiva” a Macron. Se os democrata-cristãos de Merkel estão dispostos a ceder pouco para chegar à visão de Macron, o que dizer dos Estados Unidos da Europa de Schulz? Então, por que antecipar a insatisfação promovendo outro grande desígnio futurista que nunca será realizado?

Dizer isso não é se refugiar no pragmatismo, sem um objetivo maior ou sem filosofia. Mais: é sugerir uma mudança filosófica, do futurismo para o conservadorismo. Em vez de vermos o projeto político europeu como se estivéssemos sempre olhando para uma construção racional, pensemos nele como algo que conserve e melhore o grande e desordenado lar comum europeu que temos agora.

Temos instituições compartilhadas que vão além das de muitos Estados. A maioria dos europeus tem hábitos arraigados de cooperação e compartilha valores que emergem espontaneamente ante as façanhas de Vladimir Putin ou Donald Trump. A maioria deseja preservar sua união e a liberdade de trabalhar, estudar, viajar e viver em qualquer lugar na UE.

Os laços sociais da Europa podem são ser tão fortes quanto os de uma nação antiga, mas são mais fortes que os de muitas organizações internacionais. E cresceram organicamente, por meio de negociações, compromissos e acontecimentos fortuitos. 

Muitos europeus querem cuidar se seus lares, corrigir os rumos do euro e proteger o espaço Schengen, mas não querem redesenhar a casa toda, como alguns arquitetos insistem. E, sejamos francos, nestes tempos sombrios, apenas manter o que foi construído já seria uma grande conquista. Assim, aguardo o relatório sobre a conservação de nosso lar europeu. Enquanto isso, ações continuarão falando mais alto que palavras./ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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