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Artigo: E deu Trump!

Paradoxos republicanos

Gunter Axt*, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2016 | 16h35

Os Estados Unidos deram passo importante ao porem um negro na Casa Branca. E retrocederam ao consagrar o bilionário fanfarrão Donald Trump! Mas não é o fim do mundo – que já esteve para acabar várias vezes. Vitorioso, Trump tende a moderar o discurso e o próprio sistema institucional operará para conter arrebatamentos. Obama já o recebeu com elegância de estadista na Casa Branca, depois de toda a detração. Mas será sempre um destemperado com a mão na caneta. Como foi possível? Que lições nos deixa?

Bem, Hillary é um desastre: sua intervenção tem responsabilidade nas guerras civis da Líbia e da Síria e na emergência da crise dos refugiados na Europa. E ela estava pronta para ir à guerra com a Rússia. 

Ainda que ambos pertençam à mesma elite branca e endinheirada, a vitória de Trump investe contra o político profissional e exalta o mito do self-made man, do líder voluntarioso e carismático. Passo em direção ao populismo, que ingênuos acreditavam ser praga latino-americana. 

É a rejeição a uma mulher que coloca a frieza carreirista e a ambição calculista acima da autenticidade e da coerência das opiniões. Ela ignorou a traição do marido e depois de desqualificar o adversário Obama nas prévias do Partido Democrata, aliou-se a ele como se nada dissera. Movimenta-se como um robozinho, de gestos ensaiados.

Porém, a alternativa foi um arrivista narcísico que mentiu e bravateou sem constrangimentos. Talvez, de algum modo, o eleitor possa estar cobrando mais coerência das mulheres públicas do que dos homens públicos... Mas a percepção da autenticidade parece estar mais ligada ao carisma do que à coerência do discurso. A importância do carisma é proporcional ao tamanho da crise. Os nada-carismáticos Richard Nixon e Dilma Rousseff chegaram à presidência em época de prosperidade e caíram quando a economia se desarranjava. Mas se Dilma perdeu governabilidade, Nixon caiu porque mentiu... Bill Clinton esteve ameaçado por um impeachment, por mentir sobre um affaire com a estagiária. Os americanos eram intolerantes para com a inverdade de seus líderes. Mas desde que George Bush falseou impunemente sobre as armas de extermínio em massa de Sadam Hussein, algo parece ter mudado.

Ao eleger-se agredindo, Trump sugere que a política de fato está diferente na Era Digital. Na prática, a verdade e a ética perdem terreno para o vale-tudo que torna um factoide viral na rede. E desmentidos só vêm depois que o estrago está feito. Não foi exatamente isso o que fez o canal partidário Fox News anunciando falsamente durante dias que o FBI denunciaria a Fundação Clinton?

 

A vitória de Trump foi golpe duro no politicamente correto, que começou como fórmula generosa (mas não revolucionária) do campo liberal, para terminar intoxicando o meio universitário ao ser encampado com histeria por uma esquerda acadêmica que, envergonhada depois da queda do Muro de Berlim pela adesão acrítica às metanarrativas, empapuçou-se, incoerentemente, de pós-estruturalismo e pós-modernismo. 

Dentre as consequências da infestação está o prejuízo à liberdade de expressão e de pensamento, como denunciam herdeiros genuínos da Contracultura, como Camille Paglia e J.M. Coetzee. Como os campos liberal, socialdemocrata e da esquerda tradicional fracassaram na contenção do monstro, a reação na política vem sob a forma de aberração, a um passo do fascismo, emulando o discurso xenófobo, racista, homofóbico e machista. Alerta para o Brasil, se o pensamento crítico terminar de sucumbir ao pós-estruturalismo foucaultlatra que torce e retorce o bom-senso em torno da questão de gênero. Afinal, tudo que é em excesso, causa fastio. 

Com Trump, ganha musculatura o fenômeno das milícias, que vem se disseminando pelo interior dos Estados Unidos. Típico do fascismo e de repúblicas bananeiras, esses milicianos treinam para resistir a uma possível proibição do porte de armas e para defender um modo de vida supostamente ameaçado por imigrantes e refugiados latinos e muçulmanos. Não são poucos e trazem o The Walking Dead para a vida real (os zumbis, representam bem a ameaça do Outro, vizinho e semelhante, mas miscigenado e infectado por maus hábitos).

Os radicais se reforçam. Um extremista cresce mais no confronto com outro. Paradoxalmente, com Trump vencem também os terroristas islâmicos, que demonizam a “América” e juraram exterminar a liberdade. 

Assim como a unção de George Bush veio na esteira de uma fraude, como todos sabem, a eleição de Trump foi manipulada. Começou logo depois da eleição de Obama. Percebendo a dificuldade de emplacar um candidato à corrida presidencial, em virtude do apoio popular aos democratas decorrente de políticas sociais, os republicanos decidiram conquistar maioria em parlamentos estaduais, onde fizeram aprovar leis que restringem o voto dos negros e pobres. Lá o voto não é obrigatório, não há título eleitoral, tampouco carteira de identidade oficial. A exigência de documentos com fotos aos eleitores apartou os mais pobres do processo, porque carteira de motorista e passaporte custam caro e só os têm os que possuem veículos e que viajam ao exterior. Além disso, seções eleitorais foram sendo desmobilizadas em bairros populares, desencorajando o exercício do voto, que lá requer disponibilidade para horas em filas. Não surpreendem as explosões de revolta nas ruas em protesto contra o abuso de autoridade policial... talvez seja o recurso que reste a quem mal consiga votar.

Mas a manipulação não parou por aí. Hackers industriados pelo governo russo teriam roubado e divulgado e-mails de Hillary. Ela não deveria ter utilizado um provedor pessoal em serviço público, mas qual a evidência de que isso foi tão grave? A obsessão da imprensa por esses e-mails contrasta com o pouco caso diante da não divulgação da declaração de renda por Trump. A ação do diretor do FBI, James Comey, que se valeu do cargo para interferir no processo, remete a um cenário assustador. Comey trouxe o poder paralelo e subterrâneo das teorias de conspiração para a vida real. E Trump aceitou tanto a prevaricação e a advocacia administrativa de Comey, quanto a mãozinha de agentes estrangeiros. Isso nos leva para o polo oposto do invocado por Trump em seus discursos, pois se ressentem dessas investidas a institucionalidade e a soberania nacionais. 

Companheiros de partido de Trump ruborizaram diante de escândalos e arroubos, chegando a pedir a sua renúncia. Mas a estratégia de detração do oponente já havia sido enfeixada pelos republicanos desde o governo Bill Clinton. No Congresso, parlamentares colocaram o boicote partidário acima do interesse coletivo. Em 2013, o orçamento virou refém, paralisando o governo da maior economia do planeta. Em 2015, o premiê israelense Binyamin Netanyahu foi convidado a discursar no Congresso, num ato de desafio à competência de Obama em política externa. 

O Partido Republicano já havia anunciado a guinada com Sarah Palin candidata à vice-presidente em 2008. Trump e Palin têm muito em comum. O estilo despojado, comunicativo e empreendedor fala direto ao coração da classe média e operária dos EUA profundo. Trump quer ser o pilgrim macho redivivo, assim como Palin se credenciava como a pilgrim fêmea. É o contraponto à imagem de establishment de Washington e da Ivy League que tanto os Clinton, quanto Obama, encarnam. Hillary foi mais votada nos Estados melhor sucedidos economicamente e entre os cidadãos com curso superior. Os EUA já não parecem tão unidos. 

Trump prometeu regenerar a sociedade decadente. Mas o modo como sua eleição se deu escancara o prejuízo aos valores liberais e democráticos. A volta à América viril e industrial que liderava o mundo não passa de uma miragem saudosista cuja tentativa de realização elide núcleos das instituições contemporâneas.

Em escala global, também paradoxos. O repúdio de Trump à globalização sugere que a nova direita de lá e a esquerda daqui têm seus pontos em comum. Da mesma forma, a nova direita daqui, que esgrime o ideário liberal para a economia, se identifica com Trump, o protecionista. Finalmente, o nacionalismo de Trump tende a fazer retroceder mecanismos de governança global, justamente no momento em que crises humanitárias explodem e os estados nacionais se mostram cada vez mais impotentes para resolverem sozinhos os dramas planetários. 

Os EUA são grandes, poderosos, têm capacidade de reinvenção. Mas racha tão profundo não se vê desde a Guerra de Secessão. A ferida recém-aberta levará muito tempo para sarar. Enquanto isso, populistas de direita no mundo sentir-se-ão estimulados pela vitória de Trump. O mundo em que vivemos está diferente.

* É historiador brasileiro   

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