Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Artigo: Falar da saúde mental de atiradores é uma desculpa

Lobby das armas nos EUA pressiona pela proibição de pesquisas sobre o impacto da falta de regulação em número de assassinatos

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

Donald Trump tentou explicar a mais recente chacina ocorrida nos Estados Unidos com o argumento de que o atirador de Las Vegas é um homem doente. Nós ouvimos essa opinião rotineiramente, depois de cada novo incidente. No entanto, ela é um subterfúgio, uma distorção dos fatos e uma evasiva quanto à resposta necessária.

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Não há provas de que ele fosse insano – prefiro não usar seu nome e dar-lhe publicidade, mesmo postumamente. Pelo que sabemos, o atirador não teve uma história de doença mental, nem foi mencionado por um comportamento que sugeriria tal condição. Era claramente um homem mau, ou pelo menos um homem que fez algo realmente cruel. Mas maldade não é loucura. Se definirmos a tentativa de tirar a vida de um ser humano inocente como loucura, então todo assassino é louco. Caso contrário, devemos admitir que é um termo sem sentido que pouco acrescenta à nossa compreensão do problema.

Na verdade, a rápida aceitação de doença mental distorce a discussão. Em primeiro lugar, difama pessoas que realmente são portadoras de transtornos mentais. Tais pessoas não são inerentemente muito propensas à violência. São, com maior frequência, vítimas da violência, em vez de agressores. Na medida em que alguns são violentos, a probabilidade é maior de que de inflijam dano a si mesmos. Os problemas de saúde mental têm correlação bem maior com suicídios do que com homicídios.

Em segundo lugar, voltar-se imediatamente para a “doença” do atirador e, piedosamente, fazer apelos por melhores cuidados de saúde mental é, na maior parte das vezes, uma tentativa de desviar a atenção do problema principal: as armas. 

Toda conversa a respeito de mortes por armas deveria começar pela admissão de um fato de clara desinformação sobre o problema – os Estados Unidos vivem em seu próprio planeta. A taxa de mortalidade por armas nos EUA é dez vezes maior que a de outros países industrializados avançados. Lugares como o Japão e a Coreia do Sul têm índices próximos de zero em mortes relacionadas a armas em um ano. Os Estados Unidos têm 30 mil.

Dados. É essa disparidade o fato central que precisa ser estudado, explicado e encarado. Quando visto sob essa luz, torna-se óbvio porque colocar o foco na saúde mental é um subterfúgio. Os dados sobre doença mental nos Estados Unidos não chegam nem perto da taxa da Grã-Bretanha, 40 vezes maior. Mas o índice de mortes por armas é 40 vezes superior nos EUA. Os Estados Unidos têm cerca de 15 vezes mais armas per capita do que a Grã-Bretanha e muito menos restrições quanto à sua propriedade e uso. Essa é a correlação óbvia que enfrentamos.

E não se trata simplesmente do fato de os EUA serem diferentes do resto do mundo desenvolvido. Os dados que avaliam cuidadosamente a violência por armas em todo o país encontram uma correlação igualmente próxima. Os Estados que têm algumas das mais elevadas porcentagens de propriedade de armas possuem algumas das maiores taxas de mortalidade relacionadas a armas (Alasca, Wyoming, Montana, Arkansas) e os com as menores taxas de posse de armas têm menor número de mortes relacionada a armas (Nova York, New Jersey, Connecticut, Rhode Island).

A forma de abordar a questão é um problema mais complexo, dificultado em particular pelo fato de nos recusarmos – literalmente – a estudá-lo. Uma das principais agências governamentais que patrocina pesquisas em saúde pública, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, foi praticamente proibido por lei de fazer pesquisas sobre violência armada e políticas públicas durante duas décadas. Escondida em uma lei de 1996, há uma cláusula, defendida pela National Rifle Association (NRA), que proíbe o CDC de financiar pesquisas que possam “defender ou promover o controle de armas”. 

Não existe uma resposta simples para a questão, dada a Segunda Emenda, a cultura de armas dos Estados Unidos e a influência do lobby das armas. Mas há muitas pequenas correções que fariam uma enorme diferença: checagem geral de antecedentes; restrições a armamentos do tipo militar (entre as quais, proibindo os “bump stocks”, acessórios que convertem uma arma semiautomática em uma automática); proibição da venda para pessoas com histórico de violência doméstica ou abuso de drogas. 

No entanto, primeiro temos de parar com os desvios e evasivas. Quando se leva em conta a obstinada inércia dos EUA frente a essa epidemia contínua e evitável de violência armada, me indago se não somos todos nós americanos, os loucos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É COLUNISTA

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