EFE/ALBA VIGARAY
EFE/ALBA VIGARAY

Artigo: Mundo não deve ter um Irã nuclear, cumpra-se o acordo

Se os americanos se esquivarem de suas obrigações, Teerã também pode deixar o pacto, sem aviso prévio 

Ernst J. Moniz* / The Boston Globe, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2017 | 05h00

Quando o acordo nuclear com o Irã foi concluído, há mais de dois anos, muitos se perguntaram se Teerã respeitaria seus termos. Hoje, por incrível que pareça, a dúvida é se os EUA o respeitarão. Se o presidente Donald Trump retirar o país do pacto, os americanos desencadearão uma crise que aumentará significativamente os riscos nucleares.

+ Irã respeita seus compromissos nucleares, atesta agência da ONU

Um Irã com armas nucleares seria uma ameaça regional que o mundo não pode permitir que aconteça. O acordo nuclear de 2015 é fundamental para impedir esse cenário e não apenas um instrumento facilitador, como Trump e outros sugeriram. Se os EUA se esquivarem de suas obrigações, o Irã também pode sair, sem aviso prévio. 

Para se entender o que está em risco, é importante deixar claro o que esse acordo estabelece e o que os EUA poderão perder se forçarem o colapso do que foi combinado. 

Primeiro, perderia meios importantes de restringir as atividades nucleares iranianas. Como físico envolvido no programa nuclear americano há décadas, sei quanto é preciso para se construir uma bomba nuclear. Como principal negociador das obrigações finais iranianas no acordo, sei que o documento de 159 páginas, com detalhes sem precedentes, é uma significativa barreira para impedir o Irã de fazer uma bomba. Sem o acordo, restrições que por mais de uma década impediram qualquer avanço potencial do Irã rumo a uma bomba desapareceriam. Os mecanismos de controle que já levaram à redução do estoque iraniano de urânio, reduziram o número de centrífugas e limitaram sua tecnologia seriam perdidos. Os EUA também ficariam sem proibições que impedem o Irã de produzir quantidades significativas de plutônio, obrigam o país a mandar para o exterior todo o resíduo do combustível nuclear gasto e proíbem qualquer pesquisa ou desenvolvimento que possa contribuir para um programa de armas nucleares. 

Segundo, os EUA perderiam toda visibilidade crítica das atividades nucleares iranianas. O acordo impõe inspeções sem precedentes pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para colher informações ininterruptas das atividades nucleares do Irã e detectar tentativas encobertas de produção de armas. O monitoramento cobre todos os estágios das atividades nucleares iranianas com o mais robusto protocolo de inspeção e verificação já negociado com qualquer país. Sem o acordo, a AIEA não mais teria acesso assegurado a locações iranianas suspeitas. Os EUA também perderiam a garantia de poder rever, e rejeitar potencialmente, qualquer compra pelo Irã de material relativo a desenvolvimento nuclear.

Quando o acordo foi finalizado, alguns perguntaram por que concordamos que ele seria “temporário”, assinalando que todas as restrições eram de fato permanentes. A resposta é: não concordamos. Enquanto algumas restrições sobre enriquecimento e atividades nucleares deixarão de vigorar entre 2026 e 2031, os aspectos mais importantes do acordo têm caráter perpétuo – a proibição permanente de que o Irã tenha um programa de armas nucleares e a continuidade de inspeções abrangentes. Sob o acordo, mantemos hoje e para o futuro todas as opções para responder a qualquer tentativa do Irã de desenvolver armas nucleares e as melhores informações para garantir fazer isso. 

Terceiro, perderíamos um meio eficaz de obter o apoio de outros países para reimpor rapidamente duras sanções por meio do Conselho de Segurança da ONU caso o Irã viole seriamente o pacto – embora nada no tratado impeça os EUA de adotarem ações militares se houver evidência de que o Irã esteja desenvolvendo armas nucleares.

Quarto, retirar-se do acordo deixaria os EUA isolados. Os EUA convenceram China, Rússia, Europa e o restante do mundo a, juntos, limitarem o programa nuclear iraniano. Se o país tentar destruir o acordo a pretexto de melhorá-lo, como querem alguns, pode acabar unindo o mundo em torno do Irã e contra os EUA – um presente para seus adversários de todo o planeta. 

As críticas ao acordo falham ao não pôr nada melhor no lugar. Alguns apontam para o que ele não abrange – o apoio do Irã ao Hezbollah, o programa de mísseis de Teerã, suas ambições regionais e seu endosso ao regime assassino da Síria. Mas existe um longo histórico de negociações nucleares com países que têm pontos de vista diametralmente opostos aos dos EUA. O presidente Ronald Reagan fez acordos nucleares com os soviéticos, com os quais os EUA não se entendiam em vários outros campos. Não há nada impeça os EUA, ou a outros países, de discutir temas com o Irã fora do âmbito do acordo. Na verdade, discutir esses temas sem o acordo poderia ser muito mais perigoso caso o Irã tivesse armas nucleares. Basta ver a situação com a Coreia do Norte. Em vez de rasgar o acordo com o Irã e começar perigosamente do zero, Trump deveria se concentrar em fortalecer a proibição a armas nucleares em todos os países, incluindo o Irã. 

Quando começamos a discutir o pacto, o Irã estava a poucos meses de produzir uma arma nuclear e, se a diplomacia tivesse falhado, teríamos de contar apenas com opções militares para conter esse avanço. O congelamento do programa permitiu uma solução diplomática, verificável e científica e tecnicamente viável. Não foi apenas uma conquista diplomática, mas um extraordinário esforço conjunto de países responsáveis para remover um perigo imediato para a paz e a estabilidade. Se os EUA derem agora as costas ao acordo, isso seria mais que um fato embaraçoso, uma ação irresponsável e perigosa. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É COPRESIDENTE DA INICIATIVA PELO TRATADO NUCLEAR. ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL ‘BOSTON GLOBE’

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.