J. Scott Applewhite|Reuters
J. Scott Applewhite|Reuters

Artigo: O caminho acidentado da nova era de nacionalismo

Chegada de Trump ao poder consolida ascensão de líderes com características semelhantes em diversos países do mundo

Timothy Garton Ash* / Project Syndicate  , O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

Esta semana é marcada pelo início não apenas do governo de Donald Trump, mas de uma nova era de nacionalismo. Trump é agora colega de Vladimir Putin, da Rússia, Narendra Modi, da Índia, Xi Jinping, da China, Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e uma série de outros líderes nacionalistas em todo o planeta. Embora talvez seja injusto descrever Theresa May como nacionalista, o anúncio feito por ela dizendo que levaria a cabo um Brexit forçado reflete a pressão do nacionalismo britânico sobre a direita – e deve incentivar o nacionalismo de outros. É claro que eras nacionalistas não são novidade, mas, justamente por já as termos vivenciado sabemos que elas frequentemente têm início com as esperanças elevadas e terminam em lágrimas.

Por enquanto, os nacionalistas estão se felicitando mutuamente, cada um de seu lado do oceano. Paul Nuttall, líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), diz estar “muito animado” com o advento do presidente Trump, que por sua vez diz a Michael Gove, do jornal London Times, acreditar que o Brexit “será algo ótimo, no fim das contas”. Numa foto que deveria chamar a atenção, Gove, defensor do Brexit, cumprimenta Trump com o polegar para cima, com uma expressão curiosamente abobalhada, parecendo um fã adolescente de Jornada nas Estrelas que conseguiu dez segundos com o ator Patrick Stewart. 

O vice-presidente da Frente Nacional, da França, respondeu ao discurso de Theresa May a respeito do Brexit declarando: “Logo teremos a independência francesa”. E assim por diante.

Esse mundo de nacionalismos que se reforçam mutuamente é também um mundo em que o poder relativo e a coerência interna do Ocidente são desgastadas em ambos os lados do Atlântico. O efeito dissuasivo da garantia da segurança europeia oferecida pelos Estados Unidos via Otan se encontra sob ataque dos próprios americanos. Enquanto isso, tivemos o incrível espetáculo dos líderes de Rússia, Turquia e Irã reunidos para chegar a um cínico acordo envolvendo a Síria. 

Comentaristas turcos favoráveis a Erdogan destacaram o fato de Estados Unidos e Europa não estarem nem sequer na mesa de negociações. Ao observar a fotografia dos líderes apertando as mãos, lembrei da famosa caricatura feita por David Low, mostrando Hitler e Stalin se cumprimentando em setembro de 1939, erguendo os chapéus e fazendo uma cortesia sobre o corpo de um soldado morto, com Hitler dizendo “muito prazer, escória da humanidade”, e Stalin respondendo, “prazer, assassino dos trabalhadores”.

Diferenças. É verdade que qualquer menção a Hitler traz o risco instantâneo de hipérbole. O tecido da interdependência e da ordem internacional liberal é hoje significativamente mais denso do que era até a década de 1930. É por isso que o nacionalista leninista Xi Jinping falou em Davos como defensor de uma economia internacional aberta e globalizada. Ele sabe que o desempenho econômico de seu próprio país – e, portanto, a estabilidade de seu governo – depende disso.

Os representantes de todos esses países falam das relações internacionais em termos que lembram bastante o mundo de países soberanos do século 19, em busca de seus próprios interesses nacionais. Escrevo essa coluna na Índia e, assim, deparei-me com alguns comentários recentes do ministro das Relações Exteriores, Subrahmanyam Jaishankar, que ilustram perfeitamente esse ponto. Diante da perspectiva de uma aproximação entre os EUA de Trump e a Rússia de Putin, ele observou. “Com a Rússia, o relacionamento da Índia aumentou bastante nos dois anos mais recentes, bem como a aproximação entre nossos líderes. Assim, uma melhoria nas relações entre Estados Unidos e Rússia não seria contrária aos interesses indianos”.

Eis aí um nacionalismo sóbrio, da realpolitik. Mas, por sua própria natureza, os nacionalismos tendem a se enfrentar mais cedo ou mais tarde. Assim, a insistência de Theresa May na saída britânica do mercado europeu a coloca em rota de colisão com os nacionalistas escoceses, que defendem um referendo no qual a Escócia optou por permanecer na União Europeia – e certamente no mercado único. Além disso, os nacionalismos do século 21 existem num sistema de alta pressão formado pela cobertura ininterrupta da mídia e o escrutínio do público que teria sido o pesadelo de Bismarck, Disraeli e do czar russo. Até líderes autoritários como Putin e Xi aprenderam a jogar com isso.

Choques. De longe, o mais grave desses enfrentamentos potenciais envolve China e Estados Unidos. Na sabatina à qual foi submetido, o secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, comparou o programa chinês de construção de ilhas no Mar do Sul da China à anexação russa da Crimeia, e disse que o novo governo informaria a Pequim que “o acesso a essas ilhas não será permitido”. 

Enquanto isso, aqui na Índia, o comandante das forças americanas no Pacífico, almirante Harry B. Harris, alerta que “a Índia deveria se preocupar com a crescente influência chinesa na região. Se considerarmos a influência como algo finito, o aumento da influência chinesa se reflete numa redução da influência indiana”. Portanto, um jogo de soma igual a zero.

Em parte, essa é apenas a já conhecida dança das grandes potências disputando influência entre si e os demais. Mas o risco de um confronto acidental aéreo ou naval em algum ponto do sul ou leste da costa chinesa não é nada desprezível. E, nesse caso, a pergunta seria: será que Trump e Xi contam com a sabedoria, o estadismo, a orientação e, não menos importante, o espaço doméstico de manobra para se afastar do limiar? 

É aí que a personalidade irascível, fanfarrona e narcisista de Trump se torna uma fraqueza. Por outro lado, Xi, de personalidade muito mais estável, apostou tanto de sua legitimidade como “líder central” do Estado-partido em seu “Sonho Chinês” – tornar a China grande novamente – que se veria sob imensa pressão para não recuar. Seja por razões psicológicas, políticas ou ambas, os chamados “homens fortes” com frequência têm a sensação de não poderem nunca demonstrar quaisquer fraquezas.

Ora, não estou prevendo a 3.ª Guerra, mas uma variação contemporânea da crise de mísseis de Cuba parece possível. Assim, basta de ilusões. No alto da montanha mágica de Davos, o articulado representante de Trump, Anthony Scarammuci, tenta nos convencer que tudo ficará bem. Ele diz, “para o mundo, o caminho da globalização passa pelo trabalhador americano” (entenda essa se puder), e as “mudanças perturbadoras” causadas por Trump serão “algo positivo”. Não se enganem nem caiam em “scarammucias”. Temos pela frente um caminho perigoso e acidentado nos próximos anos, e é melhor estarmos preparados. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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