AP Photo/Evan Vucci
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Artigo: Presidente, o senhor salvará os judeus?

Se Israel aplicar suas leis em territórios que não estão sob sua soberania, aparecerá como um país com apartheid, o que não é 

Thomas L. Friedman* / The New York Times , O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 05h00

Caro presidente Trump, vivemos momentos daqueles que podem consolidar ou destruir uma presidência. Primeiro, o senhor foi testado por um rival – a Rússia – e falhou redondamente ao avaliar o impacto corrosivo que sua complacência com o ataque de hackers russos teve em nossa democracia. Agora, é testado por um amigo, Israel, e seu premiê, Bibi Netanyahu. O senhor consegue imaginar o impacto na democracia israelense daquilo que Israel está fazendo na Cisjordânia? Pergunto porque o senhor pode ser o último obstáculo entre Israel e um autoinfligido desastre para o Estado e o povo judeu.

Deixe-me explicar com um exemplo de algo de que o senhor gosta: golfe. O senhor acompanhou o caso envolvendo Barack Obama e o Woodmont Country Club? O Woodmont é o mais judeu dos clubes de golfe de Maryland, pertinho de Washington. Ali, Obama jogou várias vezes como convidado durante a presidência. Quando seu mandato estava para terminar, correu o rumor de que ele queria virar sócio.

Na ocasião, o presidente e Netanyahu entraram em choque em razão da recusa de Obama em vetar a resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a ininterrupta expansão dos assentamentos judeus na Cisjordânia. Em seguida, o Washington Post informou que um membro do Woodmont, Faith Goldstein, havia mandado um e-mail ao presidente do clube declarando que Obama não era bem-vindo em razão do voto americano na ONU.

É assustador pensar que judeus, eles próprios impedidos por tantos anos de associar-se a alguns clubes de campo, estivessem cogitando de barrar o primeiro presidente americano negro, especialmente com base em algo em que metade de Israel acredita – que a contínua expansão dos assentamentos em áreas palestinas da Cisjordânia impossibilite a solução dos dois Estados, um israelense e um palestino.

Felizmente, no fim, os membros decentes do Woodmont prevaleceram. O Post informou que o presidente do clube, Barry Forman, convidou os Obamas a se associar. “É muito importante que o Woodmont tenha em seu quadro pessoas de diferentes pontos de vista e crenças”, afirmou. Por que estou contando essa história? Porque Israel está cada vez mais perto de inviabilizar qualquer possibilidade da solução de dois Estados. 

Na semana passada, Netanyahu forçou no Parlamento uma vergonhosa lei declarando que colonos rebeldes que invadiram e se estabeleceram em terras privadas palestinas na Cisjordânia terão seus assentamentos legalizados, ainda que os proprietários palestinos tenham de ser indenizados.

Espera-se que a Suprema Corte de Israel derrube a lei. O presidente israelense, Reuven Rivlin, teria advertido numa reunião privada que Israel não pode “invocar e aplicar suas leis em territórios que não estão sob sua soberania. Se fizer isso, haverá uma cacofonia legal. Israel aparecerá como um país com apartheid, o que não é”. Um país com apartheid!

É por isso que a história judaica está com os olhos no senhor. Enquanto a solução de dois Estados esteve na mesa, o debate entre judeus de Israel era de “direita versus esquerda” e “mais segurança versus menos segurança”. Para alguns, a fronteira deveria ser aqui, para outros, ali. Mas a maioria concordava que, se Israel quiser continuar um Estado democrático, precisa estar separado com segurança dos 2,7 milhões de palestinos da Cisjordânia. Esse debate deveria estar ocorrendo em todas as sinagogas, instituições e clubes judaicos, sem que isso acabasse em briga.

Se a fraca liderança de Bibi e os excessos dos colonos de seu partido terminarem solapando a solução de dois Estados, o debate na comunidade judaica mudará de “esquerda versus direita” para “certo versus errado”. “Não será um debate sobre quais as melhores fronteiras para defender Israel”, disse o filósofo Moshe Halbertal, da Universidade Hebraica, “mas se o Estado merece ser defendido em termos morais”.

Não espero que Israel deixe a Cisjordânia sem um parceiro palestino para uma paz segura, o que hoje não tem. Mas, legalizar as terras ocupadas pelos colonos no coração de áreas palestinas não é um ato de segurança – e certamente vai criar problemas de segurança. É um ato de torpeza moral que tornará mais difícil encontrar esse parceiro e corroerá os fundamentos do Estado. Isso se refere a certo versus errado.

Se é para esse lado que o debate caminha, o que aconteceu em Woodmont vai ocorrer em toda parte. Esse debate vai dividir cada sinagoga, cada organização e cada grupo judaico em cada câmpus, nos EUA e no mundo. Israel vai dividir os judeus.

Só existe uma pessoa hoje capaz de evitar esse desastre – o senhor. Bibi & Cia. usaram o Partido Republicano para cercar Obama. Mas, se o senhor, com seu partido, deixar claro que não haverá assentamentos judaicos além das áreas já designadas para a solução de dois Estados, pode fazer uma enorme diferença. Isso está a seu alcance. Presidente Trump, o senhor pode não se interessar pela história judaica, mas hoje a história judaica está interessada no senhor. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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