As ambições de Putin

A jornalista bielo-russa Svetlana Alexievich, ganhadora do Nobel de Literatura, anunciado na quinta-feira, explicava num painel literário por que acredita na não ficção como o gênero mais adequado em nossos tempos: "O que estamos experimentando agora não apenas vai além do nosso conhecimento como excede nossa habilidade de imaginar". Ela se referia ao desastre nuclear de Chernobyl, que marcaria o início do processo de decadência da União Soviética, e o colapso das Torres Gêmeas nos EUA, dois marcos do que chamou de "uma nova era na história".

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2015 | 02h05

Uma era tão complexa e multifacetada que "a arte como tal se prova impotente" em ajudar a compreendê-la. Svetlana é conhecida pelo talento em dissecar a realidade e talvez tenha sido este o objetivo da academia sueca ao dar-lhe o prêmio neste momento político, quando o mundo assiste perplexo à ofensiva militar do Kremlin na Síria, a maior fora dos antigos limites da URSS desde o fim da Guerra Fria.

Svetlana conhece como ninguém a identidade pós-soviética. "As velhas ambições imperialistas do Kremlin estão de volta", escreveu a autora no francês Le Monde. "Se você quer entender a Rússia de Vladimir Putin no século 21, tenha isso em mente. Prateleiras vazias e longas filas para comprar papel higiênico podem ser coisas do passado, mas a abundância nunca levou à democracia na Rússia. Só contribuiu com a ressurgência da mentalidade imperialista. O sonho russo atual prevê estabelecer um grande império e inspirar o medo." As palavras vieram no rastro da anexação da Crimeia, mas a ofensiva na Síria tem tudo a ver com isso.

Na Ucrânia e na Síria, governos pró-Rússia se viram ameaçados por levantes populares, polarização de forças e pressão externa. A ação militar russa garante o controle de bases navais - de Sebastopol, na Crimeia, e Tartus, na Síria - essenciais para projetar a influência global que o Kremlin ambiciona.

A base naval síria se tornou a única sob controle do Kremlin fora dos limites da URSS e além do Estreito de Bósforo - controlado pela Turquia, integrante da Otan, que Putin vê como ameaça. Ao proteger o regime de Bashar Assad, Putin garante o controle de Tartus e reforça a aliança com o bloco xiita composto pelo Irã, pelo libanês Hezbollah e pelo governo de Bagdá, limitando o poder das monarquias sunitas do Golfo, aliadas de Washington.

Moscou mostra, assim, ser ator internacional relevante e não pode ser ignorado, garantindo a Putin participação em qualquer acordo de paz na Síria e presença regional no longo prazo. Também reduz a influência dos EUA ao expor o fracasso da estratégia americana no combate ao Estado Islâmico - ontem, a Casa Branca anunciou o fim do programa de treinamento de grupos moderados que lutavam contra Assad. Os ataques russos deixaram claro que Washington não pode protegê-los.

Além da projeção externa, está em jogo a imagem interna de Putin. Há muito, o presidente usa a retórica anti-Ocidente contra o sentimento de inferioridade pós-fracasso soviético. Em seus discursos, ele demoniza as operações "pró-democracia" dos EUA, com apoio da Otan, usando como exemplo os resultados desastrosos no Afeganistão, Iraque e Líbia. Ele viu na Síria o palco ideal para provar seu argumento. Putin também tenta desviar a atenção dos russos dos problemas internos, aprofundados por sanções econômicas, ao projetar a Rússia como poder global.

"Nos últimos 20 anos, a palavra era de que nós estávamos construindo uma sociedade ocidental. Mas a fina camada que representava o liberalismo (na Rússia) desapareceu num piscar de olhos", escreveu Svetlana. "Putin agora vive em cada russo." Entre eles, corre o ditado: "Quando todos pensavam que a Rússia caíra de joelhos, estava apenas amarrando o cadarço das suas botas de combate".

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