1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

As decisões do czar Putin

Issa Goraieb

Em setembro, ele causou uma enorme surpresa, quando enviou uma imponente armada aérea para a Síria para dar apoio a um regime que corria o risco de desmoronar. Vladimir Putin surpreendeu novamente, quando na segunda-feira recolheu subitamente a maior parte do seu contingente militar, estimando que a missão tinha sido cumprida.

Verdade? Em grande parte sim, mas não totalmente. Aliás essa é a razão pela qual o Senhor do Kremlin se reserva o direito de voltar a mobilizar seus aviões na Síria, caso necessário. Do mesmo modo, o dispositivo de defesa antiaérea instalado na Síria para servir de apoio aos mísseis S-400 continua ativo. Porque, se o regime de Bashar Assad se beneficia, graças aos russos, de um sursis inesperado, o Estado Islâmico, alvo declarado de Moscou, está longe da aniquilação e a aviação russa nos últimos dias realizou ataques maciços, apoiando uma ofensiva das tropas sírias para reconquistar o precioso sítio arqueológico de Palmyra.

Por outro lado, motivos de satisfação não faltam para o presidente russo. Após o problema da Ucrânia, a entrada no teatro da Síria devolveu à Rússia a condição de superpotência que estava gravemente comprometida com o colapso da União Soviética.

Ao decidir trazer os soldados de volta para casa, ele tranquiliza uma opinião pública interna atormentada pela penosa lembrança do atoleiro afegão. E tranquiliza também a comunidade internacional dando a entender que ele privilegia uma solução negociada. Ontem criticado como um belicista, agora, o czar pode posar de estrela no cenário diplomático. E mais importante: ao retirar uma grande parte dos seus aviões, é sobretudo seu próprio protegido que Putin quer, provavelmente, chamar à razão. Para a Rússia, não se trata na verdade de ajudar Assad a reconquistar a totalidade dos territórios perdidos nos cinco anos de guerra civil, mas proteger o reduto Alauita que ele controla, consolidando a posição na negociação de paz de Genebra.

Ora, uma estabilização das fronteiras territoriais dentro do país só vai favorecer, a longo prazo, o recurso a uma fórmula federalista que poderá permitir a esse país dilacerado conservar um mínimo de unidade, solução aventada recentemente pelo vice-ministro russo das Relações Exteriores. Rejeitada com indignação pelo regime e pela oposição, a ideia acaba no entanto de ter um início estrondoso de execução com a proclamação pelos curdos da Síria, na quinta-feira, de um sistema federal nas zonas sob seu controle, onde administrarão por conta própria seus problemas.

Para a Turquia, esse avanço é a mais catastrófica das notícias. Na verdade, esse país está em vias de uma rebelião latente em suas próprias províncias curdas e o surgimento de qualquer entidade autônoma em sua fronteira só irá estimular as tentações autonomistas, ou mesmo separatistas, no seio da população curda. Foi para acalmar as inquietações da Turquia, país membro da OTAN, que os EUA exigiram que os curdos da Síria não fossem convidados para as conversações de Genebra.

Pela mesma razão, o Departamento de Estado americano se apressou a anunciar que não reconheceria a região autônoma curda. Apesar de todos estes gestos, ninguém esquece o apoio que Washington vem fornecendo, nos últimos anos, aos curdos da Síria. Neste momento de mudanças radicais nessa parte do mundo, quem poderá definir com certeza as verdadeiras intenções das potências? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*ISSA GORAIEB É COLUNISTA DO 'ESTADO' E JORNALISTA RADICADO EM BEIRUTE

 

Mais em InternacionalX