EFE/Alba Vigaray
EFE/Alba Vigaray

As dificuldade de proteger Trump em sua casa em Nova York

A proteção do presidente dos EUA em uma casa de vidro localizada no centro da cidade será um desafio sem precedentes para os agentes do Serviço Secreto

Sarah Maslin Nir, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2017 | 08h13

NOVA YORK, EUA - O presidente dos EUA, Donald Trump, passou as primeiras semanas de sua presidência na Casa Branca. Ele vem afirmando, no entanto, que também quer passar um tempo em seu apartamento de Manhattan, onde sua mulher, Melania, pretende viver pelo menos até que o filho deles, de dez anos, termine o ano letivo.

Quanto tempo isso vai durar ainda não está claro. O certo é que seu retorno pela primeira vez como presidente vai aumentar imensamente a segurança em torno de sua moradia na Trump Tower, na Quinta Avenida, segundo agentes de segurança. A medida representa um teste para a cidade que ainda está se acostumando a ter ruas fechadas, barricadas da polícia e checagem de sacolas de compras que tornam a vida difícil em um dos mais congestionados corredores de Nova York.

O resultado é um cenário de segurança sem precedentes. A proteção de um presidente e de sua casa de vidro e aço no coração da cidade serão um desafio para o Serviço Secreto. Algumas medidas, como triagem de alta tecnologia e procedimentos antiterror, já estão acontecendo. Outras devem mudar ou já mudaram, entre elas o número de agentes federais e locais a serviço e as restrições aéreas e terrestres - que podem incluir, às vezes, a limitação da Quinta Avenida a uma pista única.

“Você tenta fazer a segurança em torno dos desafios que tem, precisa levar em conta as coisas que estão na área e tentar se preparar bastante, além de lembrar sempre que as pessoas vivem na região, trabalham e tem seus negócios ali”, explica Mark J. Sullivan, que foi diretor do Serviço Secreto de 2006 a 2013. “Você tenta e consegue muito, mas a prioridade para o Serviço Secreto é manter o presidente e sua família seguros.”

Quando o mandatário estiver na cidade, uma ou mais pistas da Quinta Avenida que passam pela torre serão fechadas, segundo um agente da lei, e em casos extremos a rua pode ser inteiramente fechada, como aconteceu por pouco tempo em dezembro em razão de um pacote suspeito. “Teria que ser alguma coisa iminente ou muito séria”, diz o agente, que não quis ser identificado.

Por enquanto, a única restrição é na rua 56, onde a pista mais próxima da Trump Tower está fechada ao tráfego. O esquema de segurança em torno do prédio foi resultado de discussões entre agentes municipais e do Serviço Secreto, que inicialmente sugeriu um perímetro muito maior, que poderia ter abrangido várias avenidas, segundo Polly Trottenberg, comissária municipal de transporte.

Mesmo assim, o tempo de viagem na rua 57 - a maior rota leste-oeste de Manhattan - perto da Quinta Avenida aumentou em 20% desde a eleição de novembro, segundo o departamento, embora o tráfego ao sul da Trump Tower tenha melhorado, o que sugere que os motoristas estão evitando a área. O perímetro deve se expandir quando Trump estiver em casa.

W. Ralph Basham, que foi diretor do Serviço Secreto na era George W. Bush, diz que a proteção é um ato de equilíbrio. “Vivemos em uma sociedade aberta. Nossos líderes reconhecem que há riscos, obviamente, que estão associados, mas também sabem que precisam deixar as pessoas seguirem com suas vidas. Não dá para fechar a cidade só porque o presidente está aqui.”

As tensões sobre o que é preciso para proteger Trump e as necessidades da cidade de continuar com sua vida normal aumentaram desde as eleições. Depois que dezenas de negócios da rua 56 reclamaram de perda de receita, ela foi parcialmente reaberta.

“Quando ele estiver na cidade vai ser uma dor de cabeça ainda maior para os nova-iorquinos do que qualquer visita presidencial normal. Mesmo antes de assumir, os impactos foram enormes e as consequências para os negócios, severas”, afirma Daniel R. Garodnick, vereador democrata que representa o bairro.

A cidade diz que gastou US$ 37 milhões para manter Trump a salvo depois que ele foi eleito. O custo de protegê-lo como presidente ainda está sendo calculado e deve ser maior, dizem as autoridades. “Sabemos que haverá dois gastos diferentes: um quando o presidente Trump estiver em Nova York, e um quando não estiver. No momento, estamos determinando os valores”, explicou Freddi Goldstein, porta-voz do prefeito de Nova York, Bill de Blasio.

Desafios. A Casa Branca fica atrás de um portão ao longo de uma parte da Avenida Pensilvânia que foi fechada para veículos em 1995. Por um tempo depois da eleição de Trump, caminhões cheios de areia do Departamento de Saneamento ficaram parados na entrada da Quinta Avenida da Trump Tower.

A falta de um recuo, como o gramado em torno da Casa Branca, é um dos maiores desafios em termos de segurança, explica Bill Pickle, vice-diretor aposentado do Serviço Secreto. A melhor maneira de resolver isso seria fechar a Quinta avenida em frente ao prédio. “É a cidade deles e respeito isso, mas se você me desse uma varinha mágica eu fecharia tudo”, afirma ele.

As residências presidenciais sempre têm proteção, mas tipicamente são estruturas autônomas, cercadas de gramados ou árvores, não andares de luxo e destinos turísticos importantes. A Trump Tower tem 263 apartamentos e 38 andares; o restante são lojas e escritórios. O tríplex de Trump ocupa um dos andares mais altos, e seu escritório está alguns andares abaixo.

Com poucas exceções notáveis, como a residência que o presidente George H. W. Bush mantinha em uma suíte do Hotel Houstonian, em Houston, o Serviço Secreto não teve de lidar com os vizinhos morando em outros andares da casa de um presidente. Em hotéis, ao contrário de prédios residenciais, os quartos adjacentes ou aqueles em volta dos andares podem ser reservados por agentes da lei para formar uma bolha protetora.

A maior mudança que os nova-iorquinos vão perceber pode ser no número de pessoas protegendo Trump quando ele for visitar a cidade, incluindo as equipes de agentes do Serviço Secreto que nunca saem do seu lado até aquelas que patrulham a rua na frente da torre. “Só espere. Você achou que estava ruim antes? Agora vai ser uma loucura por aqui”, disse recentemente um agente do Serviço Secreto que vigia a Quinta Avenida sob a condição de anonimato.

Mais de 200 policiais estão designados para a Trump Tower todos os dias. Há também camadas de proteção nas ruas. Paredes de vidro, como as que existem no exterior da Trump Tower, podem ser reformadas do lado de dentro com placas de vidro à prova de balas que pesam várias toneladas, segundo alguns ex-agentes do Serviço Secreto. Em 19 de janeiro, uma ordem temporária válida desde a eleição que proibia a maioria das aeronaves de voar a menos de três mil pés na região acima da Trump Tower foi tornada permanente pela Administração Federal de Aviação.

Em janeiro, a presença de várias aeronaves militares voando baixo na linha do horizonte perturbou alguns moradores e levou a especulações de que estavam sendo conduzidas manobras de deslocamento de emergência para o presidente. Eric Durr, porta-voz da Divisão de Assuntos Militares e Navais do Estado de Nova York, afirma que foi um exercício de treinamento, mas se recusou a revelar detalhes.

Para algumas pessoas que trabalham com a proteção de presidentes, nenhuma medida de segurança é suficiente. “Eu costumava dizer: ‘Seria incrível se pudéssemos colocá-lo em uma câmera de concreto dois metros sob a terra com bastante ar e água, e ele ficaria seguro ali’”, disse Basham.

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