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As ficções malignas

MARIO VARGAS LLOSA, É ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA, MARIO VARGAS LLOSA, É ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA - O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h 04

Os seres humanos não podem viver sem ficções - mentiras que parecem verdades e verdades que parecem mentiras. E, graças a essa necessidade, existem criações maravilhosas como as belas artes e a literatura, que tornam mais suportável a vida das pessoas. Mas há as ficções benignas, como as que saíram dos pincéis de um Goya ou da pena de um Cervantes, e aquelas malignas, que negam sua natureza subjetiva, ideal e irreal e se apresentam como descrições objetivas, científicas, da realidade.

Mais recentemente, tivemos muitas oportunidades de ver os efeitos perniciosos das ficções malignas, disseminadas por alguns gurus, que dizem respeito principalmente à economia como um todo. A mais recente é a de Paul Krugman que, em sua coluna no New York Times, anunciou um próximo "corralito" na economia espanhola, o que por acaso contribuiu para acelerar a fuga de capitais da Espanha e deve ter deixado estupefatos muitos dos seus admiradores que ainda não tinham percebido que também os ganhadores do Nobel de Economia, quando se transformam em ícones da mídia, às vezes dizem bobagens.

Vale a pena dizer que os assustados com as profecias apocalípticas do professor de Princeton deveriam acreditar mais no presidente da Telefônica, César Alierta, que acabou de afirmar, categoricamente, que "a Espanha é um país solvente, tanto no setor público como no privado". Tenho certeza absoluta de que Alierta está melhor informado do que o doutor Krugman sobre a saúde econômica do país.

Uma das ficções malignas que, desde a Idade Média, é um tópico da cultura europeia é a da decadência do Ocidente. Em suas origens, ela tinha uma hipotética base religiosa e apocalíptica. No Ocidente ocorreria o fim dos tempos, da história, e o final seria precedido de um longo período de anarquia e catástrofes, matanças, pestes, confusão e ruína. Mais tarde, essas sombrias previsões foram perdendo sua conotação bíblica e adotando um semblante mais realista. Não seriam os inescrutáveis desígnios de Deus, mas a insensatez e a loucura dos próprios europeus que precipitariam a ruína e o colapso do Ocidente.

A verdade é que, apesar de guerras, epidemias, genocídios e de todas as formas de destruição e extermínio ao longo de sua história, a Europa, berço da cultura da liberdade, ainda está viva e ativa, enterrou as duas ameaças mais poderosas à democracia - o fascismo e o comunismo - e é a única região do planeta onde está em curso a construção de um grande projeto de integração de nações, sociedades, culturas, economias e instituições sob o signo da legalidade e da liberdade.

A ficção maligna em moda hoje é proclamar o fracasso da União Europeia, esse trabalho graças ao qual o Ocidente vive o mais longo período de paz e convivência da sua história e conseguiu reduzir ao mínimo os regimes antidemocráticos em seu centro e na sua periferia.

E conseguiu ainda diminuir a pobreza e elevar de maneira significativa o nível de vida da população. Diariamente, surgem relatórios técnicos, análises administrativas, pesquisas sociológicas e, principalmente, estudos econômicos demonstrando a insolvência do euro e o seu declínio inexorável, o fracasso da tentativa de unir economias avançadas e sólidas e aquelas de países pobres e subdesenvolvidos. Estatísticas fantásticas indicam que a abertura das fronteiras dentro da Europa fizeram disparar a imigração ilegal, a delinquência e abriram as portas para os terroristas radicais islâmicos.

Mudança. Provavelmente, essas ficções malignas, resultado do desvio sadomasoquista do louvável espírito crítico que caracterizou a melhor tradição da cultura ocidental, está infligindo mais danos à Europa do que a grave crise econômica que o continente enfrenta. Em todo caso, favoreceram o crescimento de partidos extremistas, de esquerda e de direita, que querem acabar com a Europa e voltar ao tempo das nações voltadas para si mesmas. Não é possível que consigam.

A crise econômica é, seguramente, muito séria e constitui um teste duro para todos os países que integram a UE. E muito mais duro, claro, para os que dilapidaram seus recursos de maneira irresponsável e viveram acima das suas possibilidades, recorrendo a créditos que agora os sufocam. Mas a crise é perfeitamente superável desde que sejam feitos os sacrifícios necessários, como demonstrou a Alemanha - país que, segundo uma outra ficção maligna do nosso tempo, devemos odiar por não permitir que a orgia de gastos continue.

A ficção maligna representa Angela Merkel como um ser insensível, para quem apenas os números importam e tem a ideia perversa de que o crescimento europeu só surgirá a partir de um ajuste fiscal e uma redução dos gastos públicos, ou seja, dificilmente serão implementadas políticas expansionistas antes de a casa ser colocada em ordem.

E a ficção maligna acrescenta que, felizmente, no escuro túnel da decadência da Europa surgiu uma luz salvadora que se chama François Hollande, que acaba de vencer as eleições na França com uma bandeira clara, simples e generosa: em primeiro lugar não está a austeridade, mas o crescimento. Bravo! Isso é ser sensível à injustiça do desemprego e à queda dos salários.

A estupidez é contagiosa, principalmente no campo político e o extraordinário é que muita gente consciente da situação real da economia europeia acredita que essa receita simplista e fantasiosa de Hollande, que lhe serviu para vencer a eleição, será também a coluna vertebral da sua política, agora que chegou ao poder. O crescimento econômico como um ato de vontade.

Se assim é, por que Grécia, Itália, Portugal e Espanha não decidem crescer e crescem? Ah, é em razão do espírito tacanho e mesquinho dos seus governantes e a da maldade inerente do capitalismo. Se tivessem um Hollande no comando...

Isso não ocorrerá pela simples razão de que um enfermo não pode correr uma maratona sem antes se curar, sob pena de morrer no caminho. E essa cura exige um período de enormes sacrifícios que são mais fáceis de suportar quando se tem a certeza de que assim a saúde e as energias serão recuperadas. A França é um país muito antigo, experiente e sábio para se suicidar cedendo a essa tentação do impossível que encheu sua cultura de tantas obras-primas. Mais cedo do que se espera, Hollande e seus colaboradores terão de reconhecer publicamente que as coisas não são tão simples como diziam e pedirão coragem e patriotismo ao povo francês para continuar apertando o cinto. Então, virá a decepção dos eleitores enganados e, bem, conhecemos o resto da história.

Desafios. Tentar o impossível somente dá resultado no mundo da arte e da literatura. No da economia e da política só provoca desastres. E a prova é a crise que hoje vive a Europa e, dentro dela, os países que gastaram mais do que tinham, que construíram Estados exemplarmente generosos, mas incapazes de investir, que se endividaram além das suas possibilidades sem imaginar que também a prosperidade tem limites. Tudo isso se paga, cedo ou tarde, é impossível evitar.

Todos os governantes europeus sabem disso, mas, entre eles, somente a chanceler alemã se atreve a dizer e agir em consequência. Com sua aparência de abadessa ou de mãe de família numerosa, Angela Merkel tem uma personalidade de ferro e se move em meio às tempestades ao seu redor com uma serenidade e uma coragem admiráveis. É possível que as ficções malignas acabem com seu governo, mas, se isso ocorrer, ela passará para a oposição com a consciência tranquila. Na verdade, ela deixou seu país muito melhor do que o encontrou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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