REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

Assad embaralha jogo

Por que o líder sírio comete um ato de barbárie quando começa a vencer a guerra? 

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2017 | 05h00

Donald Trump partiu para o ataque. E o presidente americano, que ainda ontem tinha uma imagem deplorável na França e em outros países europeus – de “bufão”, “irresponsável” e de ser um “perigo para o mundo” –, se reveste de uma outra aura. É aplaudido. Suas ações são aprovadas não apenas pelo alto escalão dos governos (François Hollande, como também Angela Merkel, Recep Tayyip Erdogan e outros), mas por muitos cidadãos comuns europeus.

Uma reação compreensível: como esquecer as imagens de crianças sírias sem conseguir respirar e agonizantes? Embora 300 mil sírios tenham sido massacrados por Bashar Assad nestes últimos seis anos, essas crianças martirizadas tocaram todos os corações, incluindo o coração até então impenetrável de Donald Trump.

A França tem razões particulares para aplaudir os mísseis Tomahawks. Paris, que deixou de lado a questão síria depois que Putin se apoderou dela com sua brutalidade e astúcia costumeiras, jamais aceitou ter sido enganada, traída, abandonada e humilhada pelo amável Obama, no caso do mesmo país, a Síria, mesmo contexto (uso de armas químicas) há quase quatro anos, em agosto de 2013.

Todos lembram que Obama, que se opôs visceralmente a intervenções militares em locais distantes – compreensível, depois dos desastres de Afeganistão, Iraque e Líbia – proclamou em alto e bom som que atacaria se a “linha vermelha” fosse ultrapassada, ou seja, num eventual uso de armas químicas por Damasco. Ora, essa “linha vermelha” foi transposta em agosto de 2013 por Assad, que utilizou essas armas, matando centenas de sírios.

François Hollande, que advertia Obama e o mundo contra a guerra da Síria e as sinistras intenções de Assad, mostrava-se disposto a lançar as forças francesas na batalha. Mas Obama tinha de se ater à sua promessa. E ele não a cumpriu. Cedeu. E se rebaixou. Vergonhoso, aos olhos de Hollande. As relações entre Paris e Washington deterioraram.

Esse é o paradoxo: a França, ontem furiosa com seu ídolo, Obama, e hoje satisfeita com um Donald Trump que tinha em pouca estima. Inútil acrescentar que todos os dirigentes políticos, como a maioria da opinião pública, esperam para ver se Trump vai se contentar com essa ação estrondosa ou continuará a agir com o fim de abrir o caminho da paz. Sobre esse assunto, conselheiros, jornalistas, futebolistas, embaixadores, todos têm seu plano. Mas a resposta não é fácil.

Por que Bashar Assad cometeu esse ato horroroso? Quando sua posição tinha melhorado depois da queda de Alepo, o que lhe deu na cabeça? Estupidez? Barbárie? Masoquismo? Muitos acham que a inércia americana acabou por lhe dar uma sensação de impunidade. Poderia fazer o que bem entender e os EUA persistiriam na sua apatia. Uma hipótese que me espanta. Assad deve saber que, embora Trump seja uma figura um pouco bizarra, justamente por isso é uma pessoa sensível e imprevisível. Portanto, essa pseudo “impunidade” é obsoleta.

Há uma segunda tese: as relações entre Assad e Putin seriam menos ternas do que se pensa. O presidente russo manteria seu protegido em “rédea curta” e estaria em busca de uma solução para se desembaraçar aos poucos do seu lacaio sírio. Assad então tramou todo esse drama para obrigar Putin a renovar ruidosamente seu apoio a ele, envolvendo-se ele próprio em uma grande provocação. Esse, no entanto, seria um blefe extraordinariamente arriscado e perigoso para o sírio. Existe uma terceira hipótese. Infelizmente ninguém sabe qual é. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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