ABDALRHMAN ISMAIL | REUTERS
ABDALRHMAN ISMAIL | REUTERS

Ataque a embaixador russo na Turquia é ameaça a diálogos sobre Síria

Presidente Vladimir Putin afirma que ‘provocação’ não impedirá aproximação com Ancara

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2016 | 05h01

O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou ontem que o atentado que matou seu embaixador na Turquia é uma “provocação” planejada para acabar com negociações de paz na guerra civil da Síria. O líder do Kremlin não disse quem estaria por trás de tal plano, mas anunciou a abertura de uma investigação com a qual o governo turco estaria disposto a colaborar.

Putin, depois de receber uma ligação do líder turco, Recep Tayyip Erdogan prometendo vingar a morte do embaixador, disse que a “única resposta” ao ataque seria uma “aliança ainda maior entre os governos para lutar contra o terrorismo”. “Os assassinos sentirão isso”, alertou.

Mas diplomatas na ONU que conversaram com o Estado alertaram que o cenário pode ser bem diferente do que Putin e Erdogan, oficialmente, pregaram na noite de ontem. O primeiro risco poderia ser uma tensão entre os dois lados que acabaria aprofundando as diferenças na Síria, levando a uma retomada dos confrontos. Muitos dos rebeldes em Alepo eram, segundos fontes da inteligência europeia, financiados pelo governo turco.

O assassinato de um dos principais negociadores russos coloca em xeque a aproximação que se ensaiava entre os governos de Ancara e Moscou. O Kremlin, no entanto, anunciou que estava mantida a reunião marcada para debater, hoje, em Moscou, um acordo de paz na Síria. O encontro envolverá ministros de Defesa e chanceleres de Rússia, Turquia e Irã. O Kremlin e Teerã deram apoio militar ao líder sírio, Bashar Assad, na retomada de Alepo.

Staffan de Mistura, mediador das Nações Unidas para a questão da guerra civil síria, anunciou ontem que um novo processo de paz será lançado formalmente pela organização no dia 8 de fevereiro.

Diplomatas consultados pelo Estado apontam que uma peça decisiva nessa nova geopolítica do Oriente Médio seria a aproximação dos governos de Recep Erdogan e de Putin. Os dois líderes foram os responsáveis por chegar a um acordo sobre o destino de Alepo, mesmo estando em lados opostos na guerra da Síria.

O próprio embaixador russo morto em Ancara, Andrei Karlov, chegou a fazer duras críticas ao governo turco em fevereiro. Mas, desde então, a tentativa de aproximação era nítida, preocupando europeus e americanos. A Turquia é um país-membro da Otan.

“O ataque vai colocar um peso ao progresso da aproximação turco-russa”, disse o analista Wolfango Picolli, da Teneo Intelligence. “Especialmente diante do fato de Ancara ter sido por anos o principal apoiador dos grupos rebeldes na Síria e que foram retirados de Alepo”, alertou.

Para diplomatas na ONU, o assassinato vai testar se Putin e Erdogan poderão mesmo se entender sobre o futuro da Síria – ou se o incidente será usado como moeda de troca, o que pode aprofundar a crise.

Outro potencial risco seria um aprofundamento na repressão, tanto por parte de Erdogan como de Putin, usando o assassinato como uma justificativa.

Na agenda do líder russo para a noite de ontem estava uma peça de teatro escrita por Alexander Griboedov, um dos últimos embaixadores russos assassinados em serviço. O incidente ocorreu em 1829, em Teerã.

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