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AFP PHOTO / Adrian DENNIS

Ataque faz lembrar urgência de laços de segurança pós-Brexit

Antes de o Reino Unido sair da UE, deve negociar a manutenção do compartilhamento de dados de inteligência

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O Estado de S.Paulo

24 Março 2017 | 05h00

A tragédia desencadeada no coração da sede do poder no Reino Unido proporcionou à primeira-ministra Theresa May um forte lembrete da ameaça de segurança que ela compartilha com os aliados europeus dos quais está prestes a divorciar.

O pior ataque terrorista em solo britânico desde 2005 ocorreu um ano após os atentados à bomba em Bruxelas e exatamente uma semana antes de o governo de May iniciar o Brexit. O agressor, Khalid Masood, de origem britânica, foi investigado pelo serviço de inteligência, MI5, alguns anos atrás, mas não fazia parte do “cenário de inteligência” atual, disse May aos parlamentares.

Inúmeras manifestações de solidariedade e ofertas de ajuda chegaram dos governos da União Europeia com os quais May estará envolvida em complexas e possivelmente ácidas discussões sobre como se separar depois de 40 anos de união.

Mas para a mulher que até oito meses atrás estava encarregada de manter o país em segurança, o incidente serve de poderoso argumento para conservar o aspecto-chave da cooperação da UE à luz da interdependência de serviços de segurança e dos complôs terroristas nas capitais europeias, de Paris a Berlim. “Desde os ataques de Bruxelas, o nível de ameaça na UE só cresceu”, disse o Soufan Group numa declaração.

Muitos combatentes originários da UE viajaram para Iraque e Síria, e um número desconhecido retornou. Isso significa que “os desafios que se colocam para a segurança e os serviços de inteligência europeus é enorme”, segundo a consultoria privada em serviços de inteligência e segurança.

Na terça-feira, o Reino Unido juntou-se aos EUA na proibição de aparelhos eletrônicos em voos provenientes de seis países do Oriente Médio. A razão apresentada foi que grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda poderiam esconder uma bomba em objetos como um laptop.

O candidato presidencial francês Emmanuel Macron, que está em primeiro lugar nas pesquisas, defendeu um aumento da cooperação em inteligência e defesa tanto com o Reino Unido quanto com a Alemanha na esteira dos ataques. Ele defendeu “uma cooperação bem maior no compartilhamento de inteligência”.

Autoridades de segurança e policiais asseguraram aos parlamentares que a capacidade do Reino Unido de compartilhar inteligência não deve ser prejudicada pelo processo do Brexit.

O Reino Unido tem acordos de compartilhamento de inteligência com países fora da UE, incluindo o “Five Eyes” (cinco olhos), aliança formada com EUA, Austrália, Canadá e Nova Zelândia que poderia servir de modelo para futuros acordos com países europeus.

“O Reino Unido dispõe de um impressionante aparato de inteligência e segurança com o qual outros querem ativamente compartilhar informações”, disse Brian Painter, diretor de segurança e especialista em risco da Discreet Help. “Creio que o Brexit não terá nenhum efeito nisso.”

Conectados. O Reino Unido é membro da Europol, uma organização policial transnacional, e é signatário do sistema European Arrest Warrant (mandado de prisão europeu) em que países membros da UE transferem pessoas procuradas por outros. Os integrantes da UE também compartilham dados sobre passageiros de voos e sobre suspeitos. Antes do ataque, tanto o Center for European Reform (CER) como o vice-premiê britânico, Nick Clegg, emitiram advertências.

O CER disse que o Reino Unido não poderá integrar o European Arrest Warrant se não for membro da UE, enquanto Clegg crê que a UE só compartilhará dados com certas salvaguardas. Ele disse que o não estabelecimento de um acordo de transição faria o Reino Unido sair das medidas de justiça e assuntos domésticos existentes após o Brexit. “A polícia teria seu acesso cortado a bancos de dados europeus e não poderia mais usar o Schengen Information System para verificar rapidamente a identidade de suspeitos ou veículos, ou transmitir os detalhes de pessoas desaparecidas”, disse Clegg em dezembro.

O secretário do Interior britânico, Amber Rudd declarou no começo deste mês que era “prioridade” manter os laços de segurança. As orientações do governo sobre o Brexit disseram que ele pretende “continuar nossa cooperação profunda com a UE e seus Estados-membros” sobre segurança e terrorismo. Mesmo assim, autoridades da UE estão conclamando o bloco a se preparar para a saída dos britânicos sem um acordo sobre cooperação.

May fez um pronunciamento à nação para dizer que a ameaça terrorista permaneceria inalterada em seu segundo nível mais alto desde agosto de 2014. Autoridades de segurança têm dito há algum tempo que um ataque terrorista em solo britânico não era uma questão de “se”, mas de “quando”. Segundo dados policiais, as autoridades britânicas impediram 13 ataques nos últimos quatro anos. Num período de 18 meses em 2015-16, elas também prenderam pessoas suspeitas de terrorismo a uma média de uma por dia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ANALISTA POLÍTICO

 

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