AFP PHOTO / Omar haj kadour
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Artigo: Ataque químico dá lição de mundo real em Donald Trump

Ilusão ingênua do presidente americano sobre combates no Oriente Médio é confrontada com a barbárie da guerra na Síria

Thomas L. Friedman* / The New York Times , O Estado de S. Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

A cada dia, o novo presidente dos EUA descobre que todos os grandes problemas com que se defronta são semelhantes ao Obamacare – se houvesse uma solução boa e fácil, já teria sido encontrada. E mesmo as soluções não tão boas vão além do que seu partido está disposto a bancar, ou o país esteja pronto a aceitar. Na terça-feira, tragicamente, Donald Trump recebeu uma lição de política exterior na forma de um sórdido ataque com gás a civis sírios, ao que se diz, perpetrado pelo regime assassino de Bashar Assad.

Trump chegou ao poder com a ingênua visão de que poderia fazer do combate ao Estado Islâmico (EI) a chave de sua política para o Oriente Médio. Achou que simplesmente jogar mais bombas e despachar mais forças especiais do que fez o presidente Barack Obama provaria que com ele, Trump, a coisa é para valer.

Foi uma ideia ingênua porque o EI não existe no vácuo – nem é o único bandido na região. O EI nasceu de uma reação dos muçulmanos sunitas à maciça intervenção iraniana no Iraque, onde milícias xiitas apoiadas por Teerã e forças governistas iraquianas de Nouri al-Maliki tentaram exterminar qualquer vestígio de poder sunita.

O ataque iraniano-xiita a sunitas iraquianos tem paralelos com o regime xiita-alauita de Assad na Síria, transformando o que começou com um movimento democrático multissectário na Síria em uma guerra entre sunitas e xiitas. Assad calculou que se metralhasse ou envenenasse com gás um número suficiente de sunitas poderia transformar os esforços democráticos desse grupo numa luta sectária contra seu regime xiita-aluita – e funcionou. 

Na semana passada, alguém chamado “Rex Tillerson” (que, descobri, é secretário de Estado dos EUA) declarou que “a situação do presidente Assad no longo prazo será decidida pelo povo sírio”. A embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, deu uma declaração ainda mais covarde, dizendo que “a prioridade dos EUA não é mais a saída de Assad”. Não dá, pois, para estranhar que Assad tenha se sentido livre para cometer o que foi descrito como “um dos mais mortíferos ataques com armas químicas em anos na Síria”.

Trump não criou o problema sírio e está certo quando se queixa de que foi jogado em seu colo pela equipe de Obama. Mas deixar simplesmente que Assad tente retomar o controle de toda a Síria significa aceitar a continuação de massacres. E uma solução com base em negociação de poder é impossível – não existe confiança. Uma derradeira (e má) solução seria uma partição da Síria e a criação de uma área predominantemente sunita protegida por uma força internacional. Tal medida, pelo menos, interromperia a matança.

Não será um trabalho agradável ou fácil, mas, na Guerra Fria, os EUA puseram 400 mil soldados na Europa para manter uma paz sectária e conservar a Europa no caminho da democracia. Levar a Otan e a Liga Árabe a estabelecer uma zona de segurança na Síria com o mesmo propósito pode ser uma tentativa válida. E então, se Putin e o Irã quiserem manter o açougueiro Assad em Damasco, que façam bom proveito.

É isso, presidente Trump, ou preparar-se para muitas outras terças-feiras. Como eu disse, todos os problemas são no mínimo do tamanho do Obamacare – nunca simples de resolver como o senhor imaginava. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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