Ataques transformam Kandahar em cidade fantasma

Quando chega a noite, a escuridão é total: não há eletricidade, e aqueles que acendem lampiões ou velas correm o risco de ser punidos pelo Taleban. Muitas pessoas não têm dinheiro para comprar alimentos -, mas mesmo se tivessem, as lojas quase não têm o que vender. A cidade afegã de Kandahar está no centro do confronto em torno de Osama bin Laden, suspeito de ter orquestrado os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono. A cidade, berço e base da milícia governista do Afeganistão, vem sendo bombardeada incansavelmente há 17 dias pelos Estados Unidos. Kandahar e seus arredores oferecem o que os militares americanos chamam de ambiente rico de alvos - quartéis-generais do Taleban, bases de treinamento que seriam usadas pela rede al-Qaeda, de Bin Laden, um aeroporto amplamente usado para operações militares e o complexo do líder supremo do Taleban, mulá Mohammed Omar. Alguns locais-chave já foram alvejados diversas vezes, desde que os ataques aéreos tiveram início, em 7 de outubro. Mas a cidade não é apenas uma base do Taleban: ela abriga meio milhão de pessoas, ou abrigava até que os bombardeios aéreos começaram. Cidadãos que fugiram para o Paquistão em busca de segurança relataram, nesta terça-feira, que agora o local é uma cidade fantasma, vazia de pessoas e repleta de medo. "Ela está deserta", relatou o mercador Mohammed Nabi, 55 anos, que deixou a cidade antes do amanhecer para unir-se à sua família, que já estava no Paquistão. "E aqueles que permaneceram só falam sobre como vão fugir de Kandahar". Os EUA têm dito repetidamente que civis não são alvos de seus ataques aéreos. Mas muitos refugiados que chegam a Quetta - a grande cidade paquistanesa mais próxima de Kandahar, com bairros inteiros povoados por kandaharenses - disseram que se sentiam ameaçados. "Mesmo por acidente, você ainda assim será morto se uma bomba atingir uma casa feita de barro", afirmou Mohammed Nasir, que juntou sua mulher e três filhos e pagou subornos para chegar ao Paquistão depois da última noite de bombardeio. Uma semana antes, a casa de um vizinho no bairro de Shahri Nau de Kandahar, foi demolida por uma bomba, relatou, que feriu três pessoas. Sua família partiu naquela mesma noite para um bairro afastado, mas o medo persistia, e eles permaneceram apenas o tempo suficiente para levantar dinheiro para a viagem. Os olhos de Nasir estavam vermelhos e sua expressão era de exaustão - "estes dias, ninguém está dormindo muito em Kandahar", explicou. Haji Mussajan, um fazendeiro de 60 anos que usa um turbante branco, disse ter abandonado seu pomar nos arredores de Kandahar para buscar abrigo com familiares em Quetta, trazendo filha e neta com ele. "Partimos por temer por nossas vidas", afirmou. "Todo dia e toda noite ouvíamos o barulho dos aviões, víamos a fumaça, o fogo", disse, apoiando-se em sua bengala. "A vida lá foi totalmente arruinada." Kandahar - pobre e destroçada por guerras mesmo antes do início da campanha aérea - tornou-se agora inabitável, afirmaram refugiados. A rede elétrica da cidade foi destruída por ataques aéreos na semana passada. Com isso, a cidade ficou praticamente privada de água também, já que as bombas elétricas não mais funcionam. Algumas pessoas nos arredores da cidade estão tentando cavar poços em seus quintais para conseguir água, relataram os recém-chegados. Tropas do Taleban ainda patrulham a cidade à noite, disseram, algumas vezes invadindo casas onde vêem um lampião ou velas acesos. Algumas pessoas esperam os bombardeios noturnos nas trevas. "Amaldiçôo os dois - o Taleban e a América", disse Mussajan. Vários refugiados afirmaram ao partirem da cidade na madrugada desta terça que viram um posto de gasolina em chamas no sul da cidade, atingido no último ataque. Eles continuaram seu caminho. Muitos dos entrevistados em Quetta disseram ter ouvido falar sobre vítimas civis dos ataques, mas poucos afirmaram ter visto pessoalmente. Mas aqueles que viram, oferecem relatos angustiantes. Nabi, o mercador, disse que há quatro dias viu uma casa demolida no bairro de Shah Khaber e quatro corpos nas proximidades. Um deles estava cortado no meio. "Foi muito, muito aterrorizador", afirmou. O Taleban garante que centenas de civis já foram vitimados apenas em Kandahar, e que em todo o país o número subiria a mais de 1.000. O Pentágono afirma que o Taleban está exagerando. Muitos dos entrevistados acreditam que 75% dos moradores da cidade já partiram, seguindo para o Paquistão ou buscando abrigo no interior. Leia o especial

Agencia Estado,

23 Outubro 2001 | 17h19

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