AFP PHOTO / JOEL SAGET AND Eric FEFERBERG
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Atentado em Paris dita tom do último dia de campanha eleitoral na França 

Lutando por uma vaga no segundo turno, a candidata nacionalista Marine Le Pen e o conservador François Fillon multiplicaram promessas e críticas sobre segurança e imigração no país tentando conquistar indecisos

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

21 Abril 2017 | 20h39

O último dia da campanha presidencial da França, esta sexta-feira, 21, foi abalado pelo atentado terrorista cometido em nome do grupo terrorista Estado Islâmico na noite anterior, que deixou um policial morto e outras três pessoas feridas na Avenida Champs-Elysées, em Paris. 

Em disputa por um lugar no segundo turno, a nacionalista Marine Le Pen e o conservador François Fillon multiplicaram promessas e críticas sobre segurança e imigração no país, tentando arrebatar eleitores indecisos. Indignado, o primeiro-ministro, Bernard Cazeneuve, reagiu, definindo a atitude como “sem vergonha”.

Todos os principais candidatos se sucederam em pronunciamentos hoje, proliferando as medidas que pretendem implementar de maior repressão ao terrorismo internacional. 

A primeira foi Marine Le Pen. Falando em seu comitê de campanha, em Paris, a candidata do partido de extrema direita Frente Nacional (FN) afirmou que a França está em “guerra assimétrica” contra o “islamismo radical”. O ataque contra as forças de ordem cometido por um homem armado na Avenida Champs-Elysées seria, nesse sentido, um ataque contra o Estado francês. “A França não é atacada pelo que ela faz, mas pelo que ela é”, afirmou. 

Le Pen disse que se for eleita, expulsará todos os estrangeiros suspeitos de radicalismo, fechará “mesquitas islamitas” e, claro, fechará as fronteiras do país ao deixar a União Europeia. Segundo a nacionalista, o território nacional “está exposto” à “guerra”. 

Depois foi a vez de Fillon manifestar-se sobre as medidas de segurança. Concorrendo com Le Pen em termos de rigor, o ex-primeiro-ministro afirmou que o estado de emergência, regime de exceção em vigor desde os atentados de 13 de novembro de 2015, “não será encerrado por muito tempo”.

“Estamos em uma guerra que será longa, o adversário é poderoso e suas redes são numerosas”, avaliou, referindo-se ao grupo jihadista Estado Islâmico em tom alarmista. “Seus cúmplices vivem entre nós e ao nosso lado.”

Em tom moderado, o social-liberal Emmanuel Macron convocou a imprensa para uma declaração em tom solene, no qual quis demonstrar estatura de chefe de Estado. “O primeiro papel do presidente da República como chefe das Forças Armadas e fiador das instituições é proteger os franceses. Estou pronto”, reiterou, prometendo a criação de uma força-tarefa para lutar contra o EI. 

A sucessão de declarações chocou parte da classe política, que acusou Le Pen e Fillon de tentarem tirar proveito de um atentado para obter vantagem no último dia da campanha. Cazeneuve atacou os dois aspirantes ao Palácio do Eliseu. “Le Pen tenta explorar de forma sem vergonha o medo e a emoção para fins exclusivamente politiqueiros”, disparou. 

Sobre Fillon, Cazeneuve acusou-o de usar de promessas vazias. “Fillon preconiza a contratação de 10 mil novos policiais. Como acreditar em um candidato que quando era premiê extinguiu 13 mil vagas nas forças de segurança?”, criticou.

Cazeneuve também frisou que 50 mil agentes das polícias civil e militar serão mobilizados amanhã, dia da eleição, para garantir a segurança de seções eleitorais e dos 45 milhões de franceses que irão às urnas.

Em meio ao debate político, especialistas em segurança pública criticaram a liberdade que o homem que atacou os policiais, Karim Cheurfi, de 39 anos, teve para atuar, mesmo tendo uma longa ficha de ataques a agentes de segurança e de ter sido preso em abril, quando advertiu ter planos para atacar policiais. “É uma falha importante, já que ele não era conhecido dos serviços antiterroristas”, advertiu Alain Bauer, um dos mais respeitados da França. 

O atentado confundiu ainda mais a situação eleitoral. Quase um terço dos franceses ainda tinha dúvidas sobre em quem votar. Além disso, diferentes pesquisas mostram uma disputa acirrada pelo segundo turno. Hoje, último dia de pesquisas, uma sondagem do instituto Ipsos para a rede pública France Télévisions indicou a liderança de Macron, com 24% das intenções de voto, à frente de Le Pen, com 22%. Em terceiro lugar aparecem empatados Fillon e o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, com 19% cada um. 

A pesquisa, no entanto, foi realizada antes do atentado na Champs-Elysées. Para Laurence Parisot, ex-diretora-presidente do Instituto Ifop, o atentado não terá impacto significativo amanhã. “O ataque se inscreve em uma lógica que já havia sido assimilada pela população”, disse.

 

 

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