'Atentado em São Petersburgo ampliará cerco à oposição russa'

'Atentado em São Petersburgo ampliará cerco à oposição russa'

Para especialista, Putin deve endurecer medidas contra questionamentos a seu governo

Entrevista com

Andre Liebich

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 05h00

O ataque em São Petersburgo ameaça "implodir" a oposição e levará o presidente Vladimir Putin a adotar medidas ainda mais duras contra qualquer tipo de questionamentos. O alerta é de Andre Liebich, um dos principais acadmicos na Europa dedicados a examinar a relação entre a Rússia e o Ocidente. 

Professor do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra, esse passou parte de sua carteira no Centro de Estudos Russos da Universidade de Harvard e é autor de uma dezena de obras sobre a realidade soviética e russa. Eis os principais trechos da entrevista:

Um ataque na cidade de Putin pode ter um impacto em sua imagem dentro do país?

Sim, esse impacto pode ocorrer. São Petersburgo é sua cidade, é a parte mais europeia da Rússia. É, portanto, um grande símbolo. A explosão afeta a imagem do homem que garante a proteção de seu país. Ela afeta sua imagem de ser aquele que mantinha um país seguro. Claro, todos os olhos estarão agora em como ele vai reagir a isso. 

E qual deve ser sua reação?

Ele certamente deverá usar o incidente para endurecer suas políticas de controle e reprimir qualquer oposição. A resposta, de fato, pode até ser desproporcional à dimensão do ataque. Mas, nesse caso, essa resposta poderá ser mais facilmente justificada, diante de um ataque em sua cidade. Questões como liberdade de expressão podem sofrer. Por enquanto, os ataques terroristas que a Rússia tinha sofrido eram no exterior. Agora, foi dentro de seu próprio lugar. De uma forma mais ampla, ela ainda pode servir para que Putin use a ocasião para restaurar o controle sobre regiões da Rússia onde grupos islâmicos estariam ganhando força. 

E como fica a oposição, que vinha organizando protestos nos últimos meses?

Esse ataque pode implodir a oposição. Na realidade, a oposição é composta por dezenas de grupos e o único que os unia era o combate à corrupção. No resto, são divididos. Alguns querem uma ação mais dura contra islâmicos, outros apoiam a presença russa na Síria e outros não. No fundo, esse ataque cria um problema sério para a definição de alianças entre a oposição sobre como vão tratar da ameaça terrorista. 

Putin continua sendo popular?

Os russos não querem de volta a inflação, a criminalidade. Ele transformou isso e teve, de fato, bons anos, com o boom dos preços de energia e commodities. Ele fez o povo voltar a acreditar na grande nação russa. Voltou a ser uma questão de orgulho. Além disso, ele fala muito bem e não se parece ao homem do campo como era o caso de tantos outros líderes russos.  Agora, a questão hoje é se isso pode ser suficiente para manter sua popularidade. Há um sentido de estagnação e de que o país não caminha mais. Antes, o que ele fazia era culpar os problemas da economia ou da vida real em Dmitry Medvedev, primeiro-ministro. Mas os ataques terroristas são diferentes. 

Como o sr. acha que o ataque pode afetar a Copa do Mundo, na Rússia em 2018?

Haverá uma nova onda de pedidos para que a Copa seja retirada da Rússia. Mas isso não se sustenta. Na França, a Eurocopa foi realizada em meio a um estado de emergência. 

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