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Atentado no Iraque faz cúpula sunita deixar diálogo sobre governo de união

Lourival Sant'Anna, enviado especial - O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2014 | 02h 02

Presidente do Parlamento e vice-premiê dizem que só voltarão às negociações depois que for investigado o massacre de 68 fiéis em mesquita no norte do país

IRBIL - Dois dos mais importantes políticos sunitas abandonaram ontem as negociações para a formação de um novo governo no Iraque, depois que um massacre em uma mesquita atribuído a milícias xiitas deixou 68 mortos na Província de Diyala, ao norte de Bagdá. O massacre parece ter sido uma vingança contra a explosão de duas bombas na casa do líder de uma milícia xiita. Ele sobreviveu, mas três de seus homens foram mortos.

Saleh Mutlaq, vice-primeiro-ministro sunita (há também um xiita e um curdo), e Salim al-Jiburi, presidente do Parlamento, retiraram-se das negociações até que sejam anunciados os resultados de uma investigação sobre o massacre.

Nomeado no dia 11, o primeiro-ministro interino, Haidar al-Abadi, tem um mês para formar um governo. Ele substituiu o xiita Nuri al-Maliki, do mesmo Partido do Chamado Islâmico, que governou por dois mandatos de quatro anos, e saiu sob pressão dos Estados Unidos e de políticos iraquianos, que o acusaram de favorecer a maioria xiita e prejudicar a minoria sunita durante suas administrações.

Abadi tem o desafio de formar um governo de união nacional em meio a uma convulsão causada por uma onda de violência sectária comparável à de meados da década passada, quando chegou ao auge, e também à ocupação de uma faixa extensa do norte do Iraque pelo Estado Islâmico (EI).

O avanço dos jihadistas, que são sunitas, acirrou as tensões. Os xiitas acusam os sunitas de apoiar o grupo radical islâmico, o que em parte de fato ocorreu em razão do descontentamento dos sunitas com o regime.

Massacre. A deputada Nahida al-Dayani, da Província de Diyala, originária do vilarejo onde ocorreu o massacre, disse à agência Reuters que cerca de 150 fiéis rezavam na mesquita Imã Wais quando os milicianos chegaram, abrindo fogo com metralhadoras. "Algumas mulheres entraram correndo para ver o que tinha acontecido com seus parentes e também foram mortas", disse ela. Segundo um major do Exército, os homens chegaram em duas caminhonetes.

Depois do massacre dos sunitas na mesquita, líderes xiitas, temendo mais uma represália, alertaram para a possibilidade de um ataque do Estado Islâmico contra a cidade de Amerli, 160 quilômetros ao norte de Bagdá, habitada por xiitas de etnia turcomana.

Segundo moradores e um funcionário público local, ouvidos pela Reuters, a cidade de 17 mil habitantes está cercada pelo grupo extremista, que colocou minas na estrada e franco-atiradores na periferia para impedir os moradores de fugir. Eles disseram que a comida e a munição para enfrentar os jihadistas estavam acabando.

Além do Estado Islâmico, é provável que outros grupos sunitas também lancem ataques em vingança pelo massacre na mesquita. Salman al-Jiburi, um líder tribal sunita, afirmou que os sunitas estavam prontos para dar o troco: "As tribos sunitas foram alertadas para vingar as mortes".

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