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Ausência da Rússia em cúpula sobre questão nuclear expõe tensão com EUA

Evento que reúne líderes mundiais pra debater formas de conter proliferação de armas atômicas e impedir que terroristas tenham acesso a elas será o último com a participação de Obama, idealizador da iniciativa em seu primeiro mandato

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Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON,
O Estado de S. Paulo

30 Março 2016 | 05h00

Sob impacto da ascensão do Estado Islâmico (EI) e dos atentados na Bélgica, os EUA comandarão a partir de amanhã a quarta Cúpula de Segurança Nuclear, que tem entre seus objetivos impedir o acesso de grupos terroristas a materiais atômicos. O evento será desfalcado pela ausência da Rússia, que pela primeira vez rejeitou o convite americano para participar do encontro, em um sinal da crescente tensão no relacionamento entre duas maiores potências nucleares do mundo. 

A cúpula foi idealizada pelo presidente Barack Obama no seu primeiro ano de governo, em 2009, e foi realizada pela primeira vez em 2010. Um de seus principais temas é a discussão de mecanismos para ampliar a segurança de materiais atômicos e radioativos, para evitar que eles caiam nas mãos de grupos terroristas. 

“Nós sabemos que organizações terroristas querem ter acesso a esse produtos para desenvolver armas nucleares”, declarou Ben Rhodes, do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. 

Segundo estimativa do governo americano, existem 2 mil toneladas de urânio enriquecido e plutônio separado em programas civis e militares ao redor do mundo, que poderiam ser usados na fabricação de até 150 bombas atômicas. 

Além da segurança nuclear, o encontro terá uma sessão especial para discutir o combate aos extremistas do EI, que reivindicou a autoria do atentado que provocou a morte de 32 pessoas na Bélgica na semana passada.

Líderes. A cúpula será realizada em Washington e terá a participação de 52 países. A presidente Dilma Rousseff cancelou ontem sua viagem à capital americana e será representada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. 

A Rússia esteve presente nas três edições anteriores da cúpula, que é uma das principais iniciativas de Obama na área de não proliferação e segurança nuclear. O Kremlin anunciou na semana passada que o presidente Vladimir Putin não tinha intenção de participar do encontro na capital dos EUA. 

Segundo a Rússia, a cúpula representa uma interferência indevida em organizações multilaterais que já se dedicam à segurança nuclear. Em vez de participar da cúpula, Moscou afirmou preferir trabalhar para reforçar a atuação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cujos líderes participarão da reunião em Washington.

Deterioração. “Nossa relação com a Rússia é fundamentalmente diferente do momento em que o presidente assumiu o cargo, em 2009”, disse Frank Rose, secretário-assistente do Departamento de Estado americano para controle de armas. “Nós tínhamos a esperança de ter uma parceria estratégica com a Rússia e isso não está mais presente”, afirmou Rose em evento realizado ontem no Wilson Center. 

Segundo ele, a Rússia tem adotado uma retórica cada vez mais agressiva em relação à sua política nuclear e passou a descumprir dispositivos do tratado bilateral de 1987, que limita o arsenal de mísseis de longo alcance dos dois países. 

Contrariando o acordo, a Rússia realizou nos últimos dois anos testes de mísseis que estão proibidos, afirmou Rose. “Tentamos usar a diplomacia para convencer a Rússia a respeitar o tratado, mas não fomos bem-sucedidos.” 

Na avaliação de Rhodes, a ausência de Putin representa uma “oportunidade perdida” para a Rússia. “Eles estão se isolando”, declarou. 

Obama receberá os chefes de Estado em jantar amanhã na Casa Branca e presidirá a cúpula na sexta-feira. Antes, ele terá um encontro trilateral com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, para discutir a ameaça representada pela Coreia do Norte e as ambições nucleares Kim Jong-un.

O assunto também estará na pauta da reunião bilateral que Obama terá amanhã com o presidente da China, Xi Jinping. “Temos o interesse comum de evitar a desestabilização da Península Coreana”, afirmou Rhodes, após ressaltar que Pequim votou a favor de todas as propostas de sanções contra Pyongyang apresentadas ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

O governo norte-coreano anunciou recentemente que obteve sucesso na miniaturização de ogivas nucleares. Kim também afirmou que o país estava preparando novos testes com mísseis e com uma bomba atômica para breve.

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