Felipe Corazza/Estadão
Felipe Corazza/Estadão

Bairro de Maduro se volta contra o chavismo

El Valle, região pobre de Caracas, vive cotidiano de escassez, violência e saques em meio à crise

Felipe Corazza, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Nicolás Maduro já não pode andar tranquilo em seu bairro de infância. O presidente venezuelano, que em 2013 contou com o apoio a sua eleição quase monolítico da população de El Valle, em Caracas, hoje terá de ver, se quiser visitar o lugar onde cresceu, pichações como “Libertem Leopoldo López” ou “Maduro Assassino” em muros e outras paredes na Avenida Intercomunal del Valle. 

Pela primeira vez desde que Hugo Chávez passou a governar o país, quase duas décadas atrás, El Valle vê sua população se voltar contra o governo e protestos violentos ocorreram há duas semanas em algumas das principais saídas da grande favela. O número de mortos não foi contabilizado, mas pelo menos 12 pessoas foram eletrocutadas ao tentar saquear uma padaria e outras foram atacadas pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e pelos “coletivos” chavistas da região.

O bairro é servido pela estação de metrô homônima, cujas saídas ficam, de um lado, ao pé da favela e, de outro, junto a conjuntos de edifícios residenciais populares - a maioria construída pelos governos chavistas. Antes mesmo de se deixar a estação, os sinais da crise que voltou a população local contra o “filho mais ilustre” do bairro se mostram. 

Das escadas rolantes que servem às quatro saídas, apenas uma funciona. Duas delas estão cobertas por lonas empoeiradas e outra teve todos os degraus retirados e amontoados em um canto. A falta de peças de reposição e o custo de manutenção sucatearam os equipamentos, segundo um dos funcionários.

Logo ao lado da estação fica a Rua Cajigal, uma das principais vias de acesso ao miolo da favela, que se estende por quase 12 quilômetros quadrados - a população total do bairro, segundo o censo de 2011, é de 142.893. As duas primeiras quadras da rua são ocupadas quase totalmente por pequenas bancas que vendem frutas, legumes e outros alimentos. 

A escassez causada pela crise econômica se mostra mais uma vez em pequenos pacotes de café, leite em pó e farinha de milho vendidos em quase todos os tabuleiros - os sacos plásticos contêm pouco mais de 100 gramas de cada produto e são vendidos a 1.000 bolívares por unidade. Pelo câmbio oficial, pouco mais de um dólar. Pelo paralelo, nem 30 centavos da moeda americana.

Antonio Mejía vive em El Valle há 26 anos. Há oito, vende frutas na Cajigal. Atualmente, sua banca tem bananas, que compra uma vez por semana no mercado paralelo para revender, cigarros avulsos e os pequenos pacotes de café, leite em pó e farinha de milho. As principais reclamações de Mejía, aos 72 anos, são o calor, que acelera a deterioração da mercadoria, e a violência. “Aí para cima”, afirma, apontando para a parte mais alta da rua, “foi onde houve tudo. Saques, protestos, mortes. Tudo. A coisa vai muito mal.” 

A memória de insatisfação popular transformando-se em protestos violentos, em El Valle, também é simbólica. O bairro foi o epicentro do Caracazo, revolta popular iniciada após um pacote de austeridade imposto pelo então presidente Carlos Andrés Pérez, em 1989. A série de protestos e repressão violenta terminou com mais de 300 mortos, segundo números oficiais, mas a cifra extraoficial chega a quase 6 mil.

Mais acima na favela, onde a GNB reprimiu os protestos recentes, a padaria La Mayer del Pan está fechada. Após a saída dos manifestantes, grupos desceram do morro e saquearam um mercado popular com várias pequenas lojas. Ao tentarem forçar a entrada na padaria, levantando as portas de aço, 12 foram eletrocutados. Apenas um dos comerciantes do entorno aceita falar sobre o caso e diz acreditar que foi uma armadilha montada pelos donos do lugar. As portas das lojas saqueadas, bem em frente, estão quase todas fechadas. Em duas delas, homens trabalhavam com equipamentos de solda para fortalecer a proteção no momento da visita da reportagem. 

O caso das eletrocuções não foi esclarecido pelos órgãos de investigação. A meia quadra de distância, está a segunda padaria da Rua Cajigal, a Manfer. Aberta, exibe uma cartolina com o preço do pão francês: 130 bolívares. A oferta é ilusória. Há mais de um mês não se consegue produzir pães ali por falta de matéria-prima, relata uma das balconistas, pouco antes de avisar a um freguês que não há leite para misturar no café.

Não muito longe da padaria Manfer estão Tiziana (nome fictício) e seu marido, que não quis se identificar. O casal vive há 8 anos em El Valle e sintetiza a desilusão com o chavismo. “Se estivessem dispostos a resolver, se os dois lados (chavismo e oposição) se sentassem para dialogar, não estaríamos passando por tanta necessidade”, afirmou Tiziana. “Tenho 69 anos, sou venezuelana e nunca pensei que fosse ver gente buscando coisas no lixo. Não estou falando de indigentes, que não têm nada, mas gente que trabalha”, lamenta. 

Para ilustrar a situação econômica dos moradores, o casal indica o centro de busca de empregos que fica em um prédio comercial do outro lado da Intercomunal. No fundo do terceiro andar, fica o salão com porta de vidro na qual está colado um velho adesivo do sistema “Empleate.com”, de busca online de trabalho. Cerca de 40 pessoas estão sentadas em computadores cadastrando ou atualizando currículos. 

O centro cobra 2.700 bolívares (pouco menos de 1 dólar, pelo câmbio paralelo) pelo cadastro e outros 2.700 a cada atualização feita pelos usuários. Alguém consegue emprego satisfatório com o sistema? “Nunca encontrei. Pouca gente encontra. Vivo de ajudar a carregar garrafões de água”, afirmou Jairo García, de 28 anos, ao deixar o salão tendo atualizado seu currículo em busca de algo melhor.

Mudança. A intensificação dos protestos contra o chavismo em “barrios” como El Valle e Petare, áreas anteriormente chavistas, é fruto do desgaste com a crise econômica que se arrasta desde o fim dos mandatos de Chávez e se agravou sob o mando de Maduro. As tentativas de compensar a escassez causada pelo descontrole cambial vêm falhando e iniciativas como a distribuição de cestas de alimentos para áreas mais pobres não dão conta da demanda. Em 2015, na eleição para a Assembleia Nacional, esse cenário produziu a primeira derrota chavista no Distrito 4 - formado por El Valle, Coche e Santa Rosalía. Agora, cobra seu preço em manifestações de rua.

“O povo se cansou. Está indignado, com raiva. As pessoas estão desiludidas”, disse o deputado Richard Blanco, da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD). Eleito com a maior votação entre os parlamentares de Caracas, Blanco repete a exigência atual dos líderes do bloco antichavista: convocação imediata de eleições gerais. 

A situação, porém, está passando da polarização e chegando à desilusão, como ilustra Tiziana. “Isso (a miséria) vem se construindo há mais tempo. Desde Carlos Andrés Pérez”, afirma. Mencionando o ex-presidente, que comandou o país por duas vezes (1974-1979 e 1989-1993), a aposentada conclui sua avaliação botando a política venezuelana em xeque. “Nenhum deles se importa com El Valle. Nenhum. Não há saída.” 

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Sem clientes, alfaiataria de 50 anos fechará

Negócio iniciado há 50 anos pelo pai de Augusto Gaztaldi vendia entre 20 e 25 camisas sob medida há dois anos, mas hoje não comercializa mais do que 4 ou 5 destes itens por mês; desiludido, alfaiate montará empresa com a filha nos EUA

Felipe Corazza, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Há 50 anos, Augusto Gaztaldi chegou do Equador e abriu uma alfaiataria que viria a ser uma das mais tradicionais de Caracas. Agora, seu filho, também Augusto, terá de fechá-la. A loja, na Avenida Solano, paralela ao calçadão comercial de Sabana Grande, resistiu a sucessivos governos e crises, mas nunca sofreu tanto quanto sob o chavismo. 

A perda do poder de compra da população e a fuga de cérebros do país reduziu drasticamente a clientela - antes composta majoritariamente por médicos, advogados e engenheiros, profissionais de alta qualificação que têm deixado o país em número cada vez maior.

As próximas semanas serão as últimas do nome de Augusto Gaztaldi a ser exibido na fachada da alfaiataria, que ainda conserva suas prateleiras em madeira de lei - mais da metade está vazia, no entanto, e as que restam abrigam rolos magros de tecido importado utilizado em ternos, camisas e coletes. “Já estou montando com minha filha uma empresa nos Estados Unidos, uma empresa de serviços. Não tem nada a ver com meu ofício, mas aqui não se pode mais ficar”, lamenta Gaztaldi.

Como exemplo da redução drástica na clientela, o alfaiate cita o volume de vendas das camisas sob medida. “Até dois anos atrás, vendia 20, 25 por mês. Hoje, vendo 4 ou 5.” Os valores não são baixos, mas “sempre tivemos clientes que vinham e compravam, no mínimo, 12 ternos por ano. Os médicos vinham e encomendavam duas camisas por vez. Quando voltavam para buscar, já encomendavam outras duas”, lembra. 

A primeira tentativa para sobreviver à derrocada econômica do país foi a redução da margem de lucro. Segundo Gaztaldi, hoje a operação rende em torno de 20% acima do custo. Uma camisa que era vendida a cerca de US$ 200, em 2011, passou a custar US$ 180 no ano seguinte e hoje já está em cerca de US$ 80 ou US$ 120, a depender do tecido escolhido pelo cliente.

Os preços sempre foram cobrados em dólar, o que manteve a família Gaztaldi razoavelmente protegida das variações da moeda local, o bolívar. Mas a alta de preços de alimentos e outros itens básicos teve seu impacto também. “Temos nossas casas próprias, temos nossa vida, mas não podemos mais sair para jantar como fazíamos antes. Hoje, trago marmita para cá”, afirma o proprietário, enfatizando que o problema não é mais de importação de insumos ou de variação cambial, mas sim de falta de clientes. “Quem tem mais dinheiro na Venezuela agora não tem o bom gosto para se vestir aqui”, sentencia.

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