AFP PHOTO / Angelos Tzortzinis
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Barco anti-imigração pede socorro, mas recusa ajuda de ONGs no Mediterrâneo

Em pane, C-Star, embarcação do movimento de extrema direita Geração Identitária, recorreu às autoridades marítimas, que enviaram navio de organização que ajuda imigrantes no mar

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2017 | 18h25

A tripulação do navio C-Star, pertencente ao movimento de extrema direita Geração Identitária, que luta contra a imigração no Mar Mediterrâneo, pediu socorro ontem, após  ficar  em alto-mar por problemas técnicos. Contatadas, as autoridades marítimas da União Europeia solicitaram que a embarcação mais próxima, da ONG Sea Eye, que auxilia os imigrantes, prestasse socorro, mas a ajuda acabou sendo rejeitada pelo grupo extremista. 

O incidente foi um novo episódio do embate entre o movimento Geração Identitária e ONGs de ajuda humanitárias, acusadas de estimularem a imigração da África para a Europa pelo Mediterrâneo. O C-Star navega com bandeira da Mongólia e foi lançado ao mar em julho.

Isso foi possível após uma campanha de crowdfunding realizada por grupos de extrema direita da Itália, da França e da Alemanha, que arrecadaram fundos para viabilizar o barco e a campanha “Defesa Europa”, cujo objetivo é escoltar botes de imigrantes de volta para a costa da Líbia, de onde partem, e “denunciar” o trabalho de ONGs no mar.

A presença do C-Star na região foi alvo de polêmica, não apenas com ONGs, mas também com especialistas em direito internacional, que consideram a  missão da tripulação do Geração Identitária ilegal – é proibido forçar barcos em águas internacionais a retornar a um dado porto. 

Ontem, C-Star sofreu uma pane, que obrigou seu comandante a lançar um alerta. Seguindo a legislação do setor, o barco mais próximo foi enviado para prestar socorro ao grupo Geração Identitária. "Fomos informados de que o navio Geração Identitária precisava de ajuda. Como somos os mais próximos do C-Star, fomos encarregados de ajudá-los. Estamos a caminho", informou o fundador da ONG Sea Eye, Michael Bushheuer, que aproveitou a oportunidade para dar uma lição nos ativistas de extrema direita. "Ajudar os navios em perigo é o dever de todos no mar, sem distinção de origem, de cor de pele, de religião ou de convicções."

A situação expôs o grupo de extrema direita ao ridículo, já que as ONGs que atuam no Mediterrâneo, e são denunciadas pela Geração Identitária como desnecessárias e cúmplices de traficantes de seres humanos, servem exatamente ao propósito de socorrer os botes de imigrantes que ficam à deriva no Mediterrâneo. 

No final da tarde, entretanto, a tripulação do C-Star informou via rádio que recusaria a ajuda do Sea Eye. Por Twitter, o grupo confirmou as "dificuldades técnicas", mas afirmou que o problema estava sendo resolvido.  "Sem perigo", reforçou.

Por volta das 17 horas, horário local, a embarcação voltou a funcionar, por razões também não esclarecidas, e passou a navegar ao largo da costa da Líbia, na altura da cidade de Zuwara, um dos grandes pontos de partida de imigrantes no litoral africano.

 

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