EFE/Alejandro Ernesto
EFE/Alejandro Ernesto

Berço da Revolução Cubana recebe funeral de Fidel

Santiago terá enterro das cinzas de líder hoje; líder cubano nasceu a 50 km de antecessor

Cláudia Trevisan ENVIADA ESPECIAL BIRÁN, CUBA, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 16h28

Fidel Castro era filho de um latifundiário e foi educado em escolas destinadas à elite cubana, enquanto Fulgencio Batista começou a ganhar a vida como cortador de cana e conquistou poder depois de entrar no Exército. Inimigos na guerra que mudaria a história de Cuba, ambos tiveram trajetórias opostas à sugerida pelas origens e viram seus passos se cruzar várias vezes antes do confronto armado.

Fidel e Batista nasceram na Província de Holguín, em cidades separadas por 50 km. Antes de iniciar a guerrilha, o líder revolucionário se casou com Mirta Diaz-Balart, filha de um dos ministros de Batista. A união foi oficializada em 11 de outubro de 1948, em uma igreja de Banes, cidade natal de Batista. A lua de mel foi em Miami, cidade que se tornaria o centro dos exilados cubanos que se opuseram à revolução.

 

Banes era dominada pela United Fruit Company, a multinacional americana que seria nacionalizada pelo governo de Fidel. A companhia transformou-se em um símbolo da influência dos EUA em Cuba e de seu apoio ao regime de Batista. Os galpões que pertenciam à multinacional estão abandonados e a casa onde Batista nasceu não existe mais. 

Abel Tarragó López, de 78 anos, vive no mesmo lugar para onde seu pai se mudou em 1930. Como quase todos os homens de Banes, ele era empregado da United Fruit Company, que controlava a produção açucareira e empregava grande parte dos camponeses. Originalmente, a construção era destinada a imigrantes jamaicanos que trabalhavam nas plantações. Com a queixa de cubanos, os imigrantes foram transferidos para moradias mais simples. 

“Temos por desgraça ser o povoado de Batista”, disse López, que é o historiador informal da cidade. Duas vezes por semana, ele conduz um programa de rádio sobre os episódios e personagens que marcaram a cidade e a Revolução Cubana. 

Raízes. O pai de Fidel era um espanhol que foi a Cuba lutar contra o movimento pela independência da ilha. Com a derrota da colônia, ele foi deportado em 1898, mas retornou no ano seguinte como imigrante. Dom Angel Castro começou a construir sua fortuna cortando árvores para a United Fruit Company, que havia se instalado na ilha no começo do século 20 e se tornou um dos focos de descontentamento dos camponeses e do movimento liderado por Fidel. Com o tempo, seu pai construiu um império de 11 mil hectares, que o próprio Fidel descrevia como um latifúndio. 

Quando tinha 6 anos, Fidel foi estudar em um colégio de elite em Santiago de Cuba, a cidade que se transformaria anos mais tarde na base da revolução e onde suas cinzas serão depositadas hoje no Cemitério Santa Ifigênia. Adulto, foi estudar Direito na Universidade de Havana, a principal de Cuba. Na expectativa de que Fidel voltaria a Birán, seu pai construiu na fazenda uma casa para o filho, na qual ele nunca viveria.

Dom Angel morreu em outubro de 1956, dois meses antes de Fidel deixar o exílio no México a bordo do iate Granma para iniciar a guerrilha em Cuba. O revolucionário já havia sido condenado a 15 anos de prisão pelo fracassado assalto ao Quartel Moncada. Na que talvez tenha sido a mais crucial intercessão entre os destinos de Fidel e Batista, o ditador o perdoou e permitiu que ele fosse para o exílio - primeiro nos EUA e depois no México.

O latifúndio construído pelo pai de Fidel em Birán foi dividido durante a reforma agrária liderada por seu governo. Sua mãe, Lina Ruz González, ainda vivia no local. “Ela nunca foi amarga em relação à reforma agrária e a redistribuição daquela terra, que ela realmente amava” disse o próprio líder no livro Cem Horas com Fidel, de Ignacio Ramonet.

A propriedade foi transformada em um museu, no qual estão mantidas as construções principais, entre as quais, a casa em que nasceu Fidel e a que seu pai construiu para ele e sua família

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