Berlusconi vai controlar 90% da audiência italiana

Silvio Berlusconi é dono da maior rede privada de televisão da Itália. Como primeiro-ministro, ele também irá controlar a televisão estatal RAI. E seus aliados estão deixando claro que a primeira providência a ser tomada deve ser um expurgo na alta direção da RAI. No total, as duas redes detêm 90% da audiência dos italianos, o que significa que Berlusconi irá desfrutar de uma concentração de poder da mídia sem precedentes para um líder europeu. Uma vassourada na RAI iria consolidar esse controle. Em toda a Europa, persistiam questionamentos durante a campanha sobre essa concentração de controle, e muitos analistas dizem que a credibilidade de Berlusconi pode depender de como ele lidará com a questão da mídia. Mesmo colegas conservadores, como o premiê espanhol José María Aznar, têm expressado preocupação sobre como Berlusconi pode equilibrar os interesses da nação com os interesses de seu próprio império financeiro, que é avaliado em mais de US$ 12 bilhões. "Não é comum haver um acúmulo de tal poder político, econômico e de mídia nas mãos de uma pessoa", disse Aznar numa entrevista publicada hoje no diário milanês Corriere della Sera. Berlusconi não tem oferecido se desfazer de suas empresas privadas de comunicação para resolver a questão. Mas ele afirmou durante a campanha que poderia vender dois dos três canais de televisão da RAI. A RAI também tem três estações de rádio nacionais. O adversário derrotado de Berlusconi, Francesco Rutelli, pediu ao futuro primeiro-ministro para resolver o conflito sobre a questão antes da reunião de cúpula do G8, a ser realizado em julho na Itália. "Não podemos aparecer com este enorme problema no mais importante palco internacional", disse ele hoje. Berlusconi, que passou sete anos como líder da oposição antes de sua vitória domingo na eleição nacional, nunca escondeu sua animosidade contra a RAI. A RAI esteve sob intenso fogo por parte de Berlusconi e seus aliados durante a ácida campanha eleitoral. Eles acusavam a rede estatal de ser uma espécie de porta-voz da coalizão governista de centro-esquerda. "Vamos fazer uma limpeza", prometeu Gianfranco Fini, um aliado-chave de Berlusconi. Berlusconi ficou particularmente irado quando o autor de um livro questionando a origem de sua fortuna foi entrevistado na RAI. Ninguém representando Berlusconi estava no programa para responder às acusações. Igualmente impopular entre os partidários de Berlusconi era um programa humorístico que satirizava impiedosamente o estilo exibicionista da campanha de Berlusconi e apresentava um de seus aliados direitistas, Umberto Rossi, como Hannibal, o Canibal. Mesmo o nome do programa, "O oitavo anão", era suspeito para os direitistas, que estavam convencidos que era uma referência maldosa à altura de Berlusconi. A rede de Berlusconi, a Mediaset, que tem cerca de 42% de audiência, contra os 48% da RAI, fez campanha aberta para seu dono, dando a ele horas e horas de cobertura. Jornais italianos estão repletos de especulações sobre o destino da RAI e de sua direção desde a vitória das forças conservadoras de Berlusconi na eleição de domingo. Uma cabeça que deve rolar é a do presidente da RAI, Roberto Zaccaria, a quem Berlusconi tem acusado de "comportar-se como um militante esquerdista" e administrar a RAI "como se fosse uma estação de tevê esquerdista privada". Zaccaria disse hoje que nunca planejou permanecer na RAI por muito tempo e estava pronto para retornar à sua cadeira de professor universitário. As coalizões governistas italianas têm sempre controlado a RAI. A diretoria da rede é nomeada pelos presidentes das duas casas do Parlamento, que são membros proeminentes da coalizão governista. A diretoria elege um presidente entre seus membros e nomeia um diretor-geral para administrar a rede. Os acionistas, na verdade o Ministério do Tesouro, têm de aprovar a escolha da diretoria. A maioria dos observadores acredita que Zaccarias será substituído por Giuliano Urbani, um dos mais próximos assessores de Berlusconi e uma figura-chave em seu partido, Forza Italia. A menos que diretores da RAI comecem a se antecipar e oferecer suas renúncias, nada de dramático deve ocorrer até que Berlusconi assuma o poder no começo de junho.

Agencia Estado,

18 Maio 2001 | 05h08

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