Boa sorte aos negociadores de paz

Thomas L. Friedman*, THE NEW YORK TIMES

29 Outubro 2015 | 02h04

Na resenha publicada pelo New York Times do importante Doomed to Success - estudo sobre a nova história das relações Israel-EUA de autoria do negociador americano para o Oriente Médio, Dennis Ross -, um momento significativo às vésperas da conferência de paz de Madri, de 1991, chamou a minha atenção. A delegação palestina apresentara no último minuto algumas restrições ao secretário de Estado, James A. Baker III. Baker estava lívido e disse aos palestinos antes de abandonar a mesa: "Para vocês, o mercado nunca fecha, mas está fechado para mim. Tenham uma boa sorte".

Fiquei pasmo porque esse tipo de conversa direta tem estado ausente da diplomacia americana para o Oriente Médio nos últimos tempos. Israelenses e palestinos estão encalacrados num clima político que eles próprios criaram, incapazes de surpreender-se mutuamente com algo positivo, e precisando desesperadamente de uma dose de bom senso de uma terceira parte amiga.

Ouvindo o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, afirmar na semana passada que foi o grande mufti palestino de Jerusalém, Haj Amin al-Husseini quem deu a Hitler a ideia do extermínio dos judeus, só é possível concluir que Bibi vive numa bolha calafetada, sem ninguém perto dele que possa dizer-lhe: "Sabe, Bibi, isso provavelmente é falso do ponto de vista histórico. Talvez você não devesse falar a esse respeito com ninguém".

Esquecemos de quanto as partes precisam dos EUA, em certos momentos, para jogar com o princípio da realidade a fim de quebrar a paralisia de sua política interna.

Como poderia soar uma mensagem americana como essa hoje em dia? Começaria dizendo publicamente ao presidente palestino, Mahmoud Abbas: "Você repudiou a proposta sem precedentes feita em 2008 pelo premiê israelense Ehud Olmert a respeito de uma solução de dois Estados, em que, como noticiou o Jerusalem Post, Olmert concordava essencialmente em renunciar à soberania do Monte do Templo em Jerusalém, o local mais sagrado do judaísmo, e sugeria que, na estrutura de um acordo de paz, a área em que se encontram os locais sagrados em Jerusalém seria administrada por uma comissão especial composta por cinco nações: Arábia Saudita, Jordânia, Palestina, Estados Unidos e Israel".

"O Post afirmou também que 'Olmert apresentou a Abbas um grande mapa no qual ele traçara as fronteiras do futuro Estado da Palestina, que previa a troca aproximadamente igual de parte do território palestino na Cisjordânia para abrigar os assentamentos israelenses em troca de partes de Israel'".

"Por que você só fica sentado como um Buda, rejeitando ideias criativas como a apresentada pelo secretário de Estado americano atual John Kerry?"

Quanto a Netanyahu, a mensagem americana direta poderia ser: "Você se tornará uma figura histórica: o líder israelense que deixou os israelenses sem nada além de uma solução do Estado único, no qual Israel deixará gradativamente de ser judeu ou democrático. Nós sabemos exatamente como é uma solução de Estado único. Basta você olhar pela janela: os palestinos pegando facas de cozinha e esfaqueando todo judeu israelense - e vigilantes colonos mascarados revidando".

Saída. Na segunda-feira, me encontrei com ministro da Defesa de Israel, Moshe Yalom, um homem bastante honesto. Ouvi-lo descrever o teatro estratégico de Israel é de fazer os cabelos ficarem em pé: A nação tem atores que não são funcionários do Estado, em trajes civis, armados de foguetes, que se mesclam à população civil, em quatro de suas cinco fronteiras - Sinai, Gaza, Líbano e Síria.

Mas será preciso que haja alguma alternativa a não fazer nada ou fazer tudo. É por isso que os amigos de Israel desapareceram. Israel tem tanta energia criativa - na ciência, na tecnologia e na medicina. Mas hoje não se vê nada disso na diplomacia.

Talvez Israel não tenha escolha. Entretanto, é um país realmente poderoso. Não é uma Costa Rica desarmada.

Ninguém espera que desista de tudo. Mas é cada vez menor o número dos que compreendem o motivo pelo qual despende tanta energia para explicar por que não pode fazer nada, porque os palestinos são irremediavelmente horríveis e porque nada que Israel possa fazer mudará seu comportamento.

Na realidade, temo que Israel esteja caminhando lentamente para o suicídio, com todos os seus mais sofisticados argumentos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*THOMAS L. FRIEDMAN É COLUNISTA

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