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Bogotá e Farc ampliam prazo de acordo

Colombianos receberam sem surpresa atraso na conclusão das negociações de paz em Havana entre governo e guerrilheiros

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O Estado de S.Paulo

24 Março 2016 | 07h14

BOGOTÁ - O governo colombiano e as Forças Armas Revolucionárias da Colômbia (Farc) decidiram adiar o prazo para a assinatura de um acordo de paz, que deveria ter sido concluído nesta quarta-feira, 23. Os colombianos receberam a notícia sem surpresa, uma vez que o impasse já era anunciado. No entanto, havia uma esperança de que os dois lados conseguissem algum avanço nas últimas horas. 

“Já era esperado”, disse José Francisco Serna, morador de Bogotá, que acredita que ainda falta muito para que os dois lados fechem questão a respeito dos pontos básicos do acordo de paz que governo e guerrilha negociam desde novembro de 2012 em Havana. Diego Romero, também de Bogotá, acredita que “um processo de paz não é uma coisa que se decida em dois ou três meses”, especialmente quando se trata de colocar um ponto final a meio século de conflito armado. 

Os dois casos são exemplos que refletem a opinião de 80% dos colombianos que, segundo pesquisa recente, não acreditavam que um acordo pudesse ser alcançado no prazo estabelecido. Sem nenhuma surpresa, portanto, e em meio ao silêncio adotado pelo governo do presidente Juan Manuel Santos, a data de 23 de março acabou virando alvo de críticas e de piadas nas redes sociais. 

A hashtag #SantosElTal23NoExiste foi uma das mais usadas nesta quarta-feira no Twitter. A brincadeira faz referência ao comentário de Santos, feito em agosto de 2013 para desqualificar uma greve de camponeses. Na ocasião, o presidente colombiano disse que “a tal greve agrária não existe”.

Em setembro, em Cuba, depois de se reunir com o líder das Farc, Rodrigo Londoño Echeverri, o Timochenko, Santos havia anunciado que um acordo final seria alcançado até o dia 23 de março. “Concordamos que, no mais tardar em seis meses, concluiremos as negociações”, disse o presidente. “Isto quer dizer que até o dia 23 de março de 2016 um acordo final deverá ser assinado.”

Logo após o anúncio, analistas já advertiam que era arriscado colocar um prazo para a conclusão das negociações era uma faca de dois gumes. De acordo com o diretor do centro de estudos da Universidad Nacional, Alejo Vargas, os dois lados estabeleceram cronogramas diferentes. “Na prática, para as Farc, a data de 15 de junho será a data-limite”, disse Vargas. 

Além do problema criado pelo prazo dado por Santos, há um impasse quanto ao quinto e último ponto das negociações, que inclui a desmobilização e a entrega das armas por parte dos guerrilheiros. 

Ainda que não haja detalhes sobre as negociações, não é segredo que as Farc querem ampliar o número de regiões designadas para a entrega das armas, enquanto o governo defende que as áreas sejam mais restritas por questões de segurança. 

“Não conseguimos concluir as negociações nessa data”, comentou um dos negociadores das Farc conhecido como Pablo Catatumbo. Para superar as diferença, Enrique Santos, irmão do presidente, viajou para Cuba no dia 14 e entrou nas negociações com as Farc, mas também não conseguiu resultados concretos.

Para lembrar: diálogo é o mais frutífero. Após sucessivas tentativas fracassadas de um acordo de paz entre governo colombiano e as Farc, a maior parte da população do país encarou com ceticismo a retomada das conversas, em 2012, antevendo mais uma frustração. O avanço da agenda de cinco pontos estabelecida pelas duas partes, no entanto, foi alterando a percepção da opinião pública colombiana e ampliando o apoio à atuação dos negociadores e do presidente Juan Manuel Santos na questão.

Em novembro, pela primeira vez, Santos e o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, apertaram as mãos em Havana ao anunciaram um acordo no ponto da Justiça de transição.

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