Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Boko Haram usa meninas para realizar ataques a bomba

Unicef alerta que, em 2015, um quinto das ofensivas do grupo usou menores capturados

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2016 | 10h38

GENEBRA - Sob ataque, o grupo armado Boko Haram passa a usar meninas a partir de oito anos de idade para conduzir ataques suicidas. Os dados foram apresentados pela Unicef que, para marcar os dois anos do sequestro de mais de 200 garotas pelo grupo nigeriano, alerta que um total de 2 mil pessoas seguiram o mesmo destino desde 2014.

"A insurgência está levando 2,3 milhões de pessoas a deixar suas casas. 700 mil delas são crianças. 2 mil escolas estão fechadas", alertou Manuel Fontaine, diretor da Unicef na Africa.

O que mais surpreende a agência da ONU é a quantidade de ataques conduzidos por crianças, nos últimos meses. Em 2013, apenas quatro ataques foram feitos usando menores. Em 2015, essa taxa chegou a 44 casos. Em um dos últimos casos do ano, uma garota bateu à porta de uma casa e pediu água. Quando estava dentro, explodiu o local. 

Hoje, um total de 20% dos ataques do grupo africano é perpetrado por crianças que haviam sido sequestradas; 75% delas são meninas e muitas são filhas de soldados do Boko Haram com mulheres que foram estupradas.

Na avaliação da Unicef, a nova informação aponta para uma radicalização cada vez maior do grupo islamista que já desestabiliza quatro países na região do Lago Chade. Por conta da insurgência, 1,5 milhão de pessoas passam fome. 

Os dados estão sendo revelados no momento em que a comunidade internacional lembra, nesta quinta-feira, do sequestro das estudantes de Chibok, na Nigéria. Apesar da fuga de algumas delas, o local de captura continua sem ser descoberto, ainda que serviços de inteligência apontem que elas possam estar sendo usadas como escudos humanos pelo Boko Haram contra as forças regulares da Nigéria, na floresta de Sambisa. 

Tática. Encurralados pelo Exército, os insurgentes estariam usando crianças para continuar a aterrorizar as populações. Em 2015, um total de 151 ataques suicidas foram realizados: 89 deles na Nigéria, contra 39 nos Camarões, 16 no Chade e 7 no Níger.

"Que fique claro: essas crianças são vítimas, não terroristas", indicou a Unicef. Os menores, na maioria das vezes, são enganados e dizem que precisam levar um pacote, em troca de dinheiro ou alimentos. Muitos ainda são drogados e deixados em locais públicos, como mercados. À distância, as bombas dentro dos pacotes são detonadas. 

Na avaliação do diretor da Unicef, essa realidade está criando um sentimento de rejeição às crianças, muitas delas abandonadas diante da morte de seus pais. "Boko Haram prefere usar esses menores a perder um de seus soldados", indicou Fontaine.

O impacto tem sido "devastador" nas sociedades que já precisam lidar com garotos que são filhos de mães violentadas por insurgentes. "As famílias agora os rejeitam", disse Fontaine.

Apenas em 2015, o grupo jihadista matou mais de 3 mil pessoas, apesar de estar perdendo espaço. "O que vemos é um grupo cada vez mais violento", disse a Unicef. Em cinco anos, o Boko Haram matou mais de 12 mil pessoas. Pelo menos 611 professores foram deliberadamente assassinados e outros 19 mil foram obrigados a fugir. 

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