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Bombardeios dos EUA e armas da UE reforçam resistência curda no Iraque

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / ERBIL, IRAQUE - O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2014 | 02h 04

Ataque. Caças americanos F-18 lançam ofensiva contra os jihadistas do Estado Islâmico, mas combatentes do Curdistão ainda reclamam de armamentos ultrapassados; envio de equipamentos pelos europeus dependerá de aprovação do novo governo iraquiano

Caças F-18 da Força Aérea americana bombardearam ontem a área em torno da estratégica represa de Mossul, no Iraque. Os ataques tinham como objetivo dar cobertura ao avanço de forças iraquianas e curdas, na tentativa de recuperar a represa, tomada pelos extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) no dia 7.

De acordo com fontes ouvidas pela rede de TV americana NBC, a decisão do ataque foi tomada mediante a informação de que os jihadistas não teriam condições de dinamitar as barragens da represa, responsável pelo abastecimento de água de boa parte do país e também pelo nível do rio Tigre, que poderia inundar suas margens se as comportas fossem abertas.

Moradores da região afirmaram à Associated Press que os bombardeios mataram combatentes do EI que ocupavam Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, a 90 km de Erbil, capital do Curdistão iraquiano.

Em reunião de emergência ontem em Bruxelas, a União Europeia aprovou comunicado apoiando a decisão de alguns países membros de enviar armas para os combatentes curdos, que resistem aos avanços do EI. França, Alemanha, Grã-Bretanha, República Checa e Holanda anunciaram que estudam enviar armas para os peshmergas, como são chamados os soldados curdos.

O documento se refere ao Iraque como "parceiro importante que precisa de forte apoio", e ressalva que a ajuda militar deve ter a aprovação do novo primeiro-ministro iraquiano, Haidar al-Abadi. O governo anterior, de Nuri al-Maliki, recusou-se a transferir aos curdos armas fornecidas pelos Estados Unidos, com receio de uma consolidação da autonomia do Curdistão, onde está parte das jazidas de petróleo iraquianas.

Em entrevista ao Estado, na linha de frente do combate aos jihadistas, 40 km ao norte de Erbil, peshmergas apontaram na sexta-feira a ironia de terem de enfrentar, com os velhos fuzis AK-47, precárias metralhadoras e canhões montados sobre caminhonetes, inimigos munidos de modernos tanques, peças de artilharia e fuzis fornecidos pelos EUA e confiscados do Exército iraquiano, que fugiu sem resistência de Mossul.

Os peshmergas, que em curdo significa "os que enfrentam a morte", reiteraram que não querem tropas de outros países, mas apenas armas para lutar de igual para igual. Entretanto, um alto funcionário civil reconheceu que os curdos não lutam há mais de uma década. A última mobilização foi em 2003, durante a invasão americana do Iraque, apoiada pelo Curdistão. Mas não chegaram a lutar. O último combate real ocorreu entre 1994 e 1997, na guerra civil entre o Partido Democrático do Curdistão e a União Patriótica do Curdistão.

Os jihadistas contam com ex-oficiais do Exército de Saddam Hussein, que debandaram para o EI e conhecem bem o terreno, disse o funcionário. Mesmo assim, os peshmergas "têm o moral alto porque estão defendendo sua terra", argumentou.

Ele reconheceu que para as potências ocidentais é delicado armar o exército de uma região autônoma com aspirações à independência. "Podem fazer um leasing das armas", brincou.

Os curdos aproveitaram a ofensiva para tomar a cidade de Kirkuk, grande produtora de petróleo, abandonada pelo Exército iraquiano. Sua inclusão no Curdistão era uma velha aspiração. Além disso, a campanha dos jihadistas, que não toleram não-sunitas, reforçou a desconfiança dos curdos. "Você viu?", disse um peshmerga à reportagem do Estado. "Os árabes não gostam dos curdos, dos europeus, de ninguém."

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