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Brasil barra ação da OEA na Venezuela

LISANDRA PARAGUASSU, MARCELO DE MORAES, BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

08 Março 2014 | 02h 02

País veta envio de observadores da organização a Caracas; Brasília prefere pedir a Maduro moderação em reunião da Unasul, na terça-feira

A Venezuela pediu e conseguiu uma reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para discutir a crise política que assola o país, em Santiago, no Chile, depois da posse da presidente eleita Michele Bachelet, na terça-feira. Ontem, mostrando o apoio do Brasil para que a questão seja debatida na Unasul, o País votou contra o envio de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e se opôs a uma reunião de chanceleres para analisar a situação.

De acordo com o Itamaraty, uma decisão da OEA, que inclui os EUA, neste momento seria inoportuna e poderia acirrar as tensões. O chanceler venezuelano, Elías Jaua, já havia declarado que o debate sobre a situação da Venezuela deveria ser feito no âmbito da Unasul, não da OEA. O máximo que a organização conseguiu foi aprovar uma declaração de solidariedade e pedir "diálogo" na Venezuela.

Na reunião de Santiago, porém, além de dar explicações, Caracas ouvirá do Brasil um recado: é preciso moderar a resposta às manifestações, adotar um tom mais conciliador para reduzir as tensões e, principalmente, a violência.

Será a segunda vez que o governo brasileiro deixa claro que não dará apoio incondicional a Nicolás Maduro. Pouco depois do início da crise, fez-se chegar aos venezuelanos que qualquer solução não democrática para a crise, incluindo uso da força e tentativas de golpe, seria tratada com o mesmo rigor reservado ao Paraguai, em 2012. A suspensão do Mercosul e da Unasul seria imediata.

O Brasil tem evitado se pronunciar sobre a crise. Até agora, o País só assinou notas, juntamente com a Comunidade dos Estados Latino Americanos e do Caribe (Celac) e com o Mercosul - a última, considerada desastrosa, teve a própria Venezuela como autor principal. A reunião da Unasul, porém, será a oportunidade para deixar ainda mais clara a visão brasileira.

Apesar da relação próxima com Caracas, tem incomodado o Palácio do Planalto e o Itamaraty os métodos pouco democráticos de lidar com a oposição adotados pelo governo Maduro. O Brasil gostaria de ver o fim da prisão de opositores - o opositor Leopoldo López está preso há mais de duas semanas acusado de incitar a violência - e da ação violenta das milícias chavistas. O discurso de Jaua, de que tudo que seu governo fez foi reagir à violência da oposição, não caiu bem.

Apesar da política de não ingerência, a avaliação é que era preciso passar o recado de que o País reagirá contra qualquer quebra na institucionalidade. O aviso serviu para os dois lados, mesmo que o governo brasileiro não tenha feito contato direto com os oposicionistas.

Inicialmente, a pedido da Venezuela, foi considerada a possibilidade de uma reunião da Unasul em nível de presidentes. No entanto, vários fatores jogaram contra a pretensão. Um deles foi a resistência chilena, que não pretendia ver a posse de Bachelet ofuscada. Outro, a avaliação brasileira de que não há razões para envolver os presidentes diretamente na questão.

Apesar das cobranças da oposição, que pede ao Brasil uma posição mais firme, a presidente Dilma Rousseff tem evitado se manifestar sobre o caso. Até ontem, falou uma vez, quando defendeu os ganhos sociais e afirmou que não cabia ao Brasil discutir a história da Venezuela.

A avaliação do governo brasileiro é que a situação se acalmou e os riscos de uma crise institucional diminuíram. As conversas da diplomacia brasileira com os venezuelanos têm sido frequentes, não apenas com Jaua, mas com outros interlocutores, como o ex-embaixador em Brasília Maximilien Arvelaiz - indicado por Maduro para a embaixada em Washington.

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