''Brasil não pode ignorar drama de dissidentes no Irã''

Para opositor iraniano no exílio, Lula ameaça fechar os olhos para as violações de direitos humanos de Teerã em nome do comércio

Patrícia Campos Mello, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2010 | 00h00

Para Akbar Ganji, um dos mais importantes dissidentes políticos do Irã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve condenar o desrespeito aos direitos humanos em sua visita a Teerã no fim de semana. O Brasil não pode deixar seus interesses econômicos se sobreporem às violações sistemáticas cometidas pelo regime dos aiatolás, exortou Ganji em entrevista ao Estado.

"Se o presidente Lula diz que o Irã não está desrespeitando o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), isso não é problema meu; nosso problema é democracia e direitos humanos. Líderes como Lula e outros no Ocidente não podem pensar apenas em seu benefício econômico", afirmou.

Segundo Ganji, muitos países, incluindo China e Rússia, veem a questão do Irã sob o prisma dos ganhos econômicos. "Sabemos que Lula segue seus interesses econômicos e políticos. Mas para nós o que é importante é a democracia. O presidente precisa levar a sério o "movimento verde"", disse, referindo-se à oposição iraniana liderada por Mir Hossein Mousavi.

A oposição reformista foi derrotada pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições de junho, em uma votação marcada por denúncias de fraude.

O Brasil tem evitado criticar as violações no Irã. No ano passado, enquanto centenas de milhares de iranianos saíam às ruas contra a suposta fraude eleitoral, Lula comparou os confrontos a rivalidades entre torcedores de futebol. "É choro de perdedor", disse o presidente.

"O apoio do governo brasileiro ao regime iraniano só trará prejuízo no longo prazo, pois o povo iraniano sabe que esse é um regime criminoso. A aliança do Brasil com esse regime determinará o relacionamento com futuros governos."

"Propaganda". Segundo ele, o povo iraniano considera Ahmadinejad "uma piada". O presidente usaria a questão nuclear e os ataques contra Israel para desviar a atenção de questões mais graves, como a prisão de dissidentes. Ganji diz que mais de cem jornalistas estão presos por "propaganda contra o regime".

Ganji ficou preso de 2001 a 2006 no presídio de Evin, em Teerã, onde estão vários dissidentes. Ele foi preso após publicar uma série de reportagens sobre assassinatos de opositores. Em 2005, fez uma greve de fome de 50 dias e quase morreu.

Depois de solto, o jornalista exilou-se na Europa e em Nova York. Ele esteve em Washington para receber o Prêmio da Liberdade Milton Friedman do Cato Institute. Ganji opõe-se às sanções propostas pelos EUA na ONU. Para ele, as medidas "só prejudicam o povo iraniano, que já é muito pobre". Ganji propõe que todas as transações econômicas com o Irã, incluindo transferência de tecnologia, sejam condicionadas ao respeito aos direitos humanos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.