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Caçando a própria sombra

ADRIANA CARRANCA

- Atualizado:25 Março 2016 | 19h 26

Os atentados do 11 de Setembro nos EUA inauguraram oficialmente uma nova era – a era do terrorismo global – e, embora raramente se faça tal associação, o que vivemos hoje é ainda consequência daquele dia terrível. O então presidente George W. Bush sabia que a “guerra contra o terror” seria longa e custosa, em gastos e vidas, e nos dias que sucederam aos ataques, uma estratégia de comunicação começou a ser desenhada para garantir apoio a ela.

Liderada por Michael Gerson, figura proeminente da intelligentsia evangélica americana que foi fundamental para a eleição de Bush à presidência, a equipe responsável por escrever seus discursos envolveu a resposta militar em uma aura de redenção. 

No dia em que autorizou o Pentágano a convocar milhares de reservistas, Bush declarou que tinha como missão “livrar o mundo do mal” e, em seguida, propôs uma “cruzada” contra o terror e convocou países aliados a uma “luta de civilizações”, como prevista pelo cientista político Samuel Huntington ainda nos anos 1990 entre identidades culturais e religiosas – em especial, cristianismo e islã. “Ou você está conosco, ou está com os terroristas”, disse o presidente, dividindo o mundo em dois – nós e eles, o bem e o mal.

Três semanas após o 11 de Setembro, as tropas entraram no Afeganistão. Em dois anos, Bush tinha atraído apoio de 49 países e arrastado o mundo para outra guerra sangrenta, no Iraque. Os regimes do Taleban e de Saddam Hussein foram rapidamente depostos, mas até hoje os EUA não conseguiram sair do atoleiro dos conflitos, embora o presidente Barack Obama tenha decretado oficialmente o fim de ambos. 

A Al-Qaeda está por trás dos atentados em Londres, em 2005, mais letais do que o ocorrido na Bélgica esta semana, e assumiu responsabilidade, entre outros, sobre o ataque ao Charlie Hebdo, em Paris. No Iraque, a dissolução do exército de Saddam levou à clandestinidade algo como “250 mil iraquianos – armados, furiosos e treinados militarmente – que se viram de repente desempregados e humilhados”, nas palavras do jornalista Dexter Filkins, da New Yorker. Muitos deles se uniram a grupos insurgentes sunitas e, com a eclosão da guerra civil na Síria, migraram para o país vizinho, passando a controlar grande parte de suas fronteiras sob a bandeira do Estado Islâmico.

Ilusões. Desde 2014, quando declarou um califado, o EI organizou ou inspirou ao menos 29 atentados contra alvos ocidentais e um sem número de ataques que mataram milhares na Síria, no Iraque e mais de uma dezena de países. A resposta tem sido a mesma: retaliação militar. Mas, como visto na Bélgica e na França, prende-se ou mata-se um terrorista aqui e outros se explodem ali – é como caçar a própria sombra. 

Ataques de grandes proporções foram evitados nos EUA, à custa de bilhões de dólares e um programa invasivo de vigilância, mas a ameaça é latente – uma piscadela e um casal mata 14 pessoas em nome do EI na pequena San Bernardino. 

Como acabar com esses ataques? A ofensiva militar na Síria e no Iraque, onde milhares estão sequestrados sob o governo perverso do EI, deve continuar. Mas é certo que não é suficiente. Se os ataques na Europe são reações às derrotas do grupo em seu território, a lógica nos leva a supor que a intensificação levará a mais atentados, ao menos no curto prazo. 

Talvez a resposta mais honesta seja que não há como acabar com o problema. Sempre haverá malucos dispostos a matar e a morrer em nome de uma causa qualquer. O que se pode fazer, no entanto, é combater a “causa” que alimenta o apoio ao EI. O apelo ideológico que leva tantos jovens ao terrorismo tem a ver com a forma como os muçulmanos passaram a se ver e a ser percebidos após o 11 de Setembro. Assim como a resposta de Bush à guerra, a narrativa dos extremistas gira em torno da mentalidade do “nós contra eles”, do “bem contra o mal” (sendo o mal, o Ocidente). 

Segundo Farah Pandith, a primeira representante da Casa Branca para comunidades muçulmanas, que viajou a mais de 80 países entre 2009 e 2014 e é atualmente pesquisadora do Council on Foreign Relations, esses grupos têm usado a narrativa de Bush para “explorar a crise de identidade” de muçulmanos. “Para acabar com o recrutamento de extremistas, devemos ser sérios em destruir sua narrativa.” Ou seguiremos caçando nossas sombras

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