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Câmbio duplo criou 'castas da divisa' entre os cubanos

Vera Rosa - Enviada especial a Havana

08 Fevereiro 2014 | 16h 45

Ilha comunista agora põe em condições sociais diferentes os que têm e os que não têm moeda forte

Quatro meses após o anúncio do processo de unificação das duas moedas que circulam em Cuba desde 1994, moradores de Havana ainda não sabem como será a transição nem o que ocorrerá com seu dinheiro, mas depositam esperanças no fim da desigualdade provocada por esse modelo. Nas ruas, cubanos dizem que a moeda única é a mais esperada das medidas divulgadas até agora pelo presidente de Cuba, Raúl Castro, e creem que, a partir daí, haverá o descongelamento dos salários.

Num momento em que o irmão de Fidel Castro promove reformas econômicas na ilha, a convivência da população com duas divisas - o peso cubano (CUP) e o peso conversível (CUC) - acirra cada vez mais as diferenças no regime comunista. Pior: cria "castas" nesse universo, que começa a abrir uma fresta para o mercado.

A disparidade existe porque a maior parte dos moradores ainda recebe salários e faz compras em peso cubano, mas a moeda forte é o CUC, com valor equivalente ao dólar (R$ 2,38). Na intrincada contabilidade da ilha, são necessários 24 pesos cubanos para obter 1 CUC.

Chamado pelos cubanos de "ce, u, ce", o CUC é o objeto do desejo dos trabalhadores, que fazem de tudo para conseguir a cobiçada moeda. Há quem leve o violão para a rua e comece a cantarolar para obter alguns trocados. Outros tentam aplicar pequenos golpes em turistas, vendendo uma moeda que chamam de "relíquia", com a fisionomia de Che Guevara.

Quem não tem "ce, u, ce" em mãos passa por maus bocados. Além disso, não pode usufruir de nenhuma das mudanças anunciadas por Raúl, como, por exemplo, o direito de viajar e comprar imóveis. Falar no celular, a 0,35 CUC o minuto, nem pensar.

"Nós recebemos em pesos cubanos, mas isso não vale nada aqui", disse um taxista que se identificou apenas como Júlio. "Todos temos de fazer bicos para arrumar ‘ce, u, ce’ e sobreviver."

Félix e a mulher, Soley, também são exemplo do cotidiano de dificuldades. Formado em Direito e desempregado, ele comprou um Lada caindo aos pedaços, por valor correspondente a US$ 8 mil, com a ajuda de uma irmã que vive na Europa. Hoje, ele atua como guia turístico e, nos fins de semana, atua como DJ em casas noturnas.

Ele compete com donos dos charmosos Chevrolet 1952, como Zoe, que é mecânico e, nas horas vagas, assume o volante como chofer de turista, cobrando 40 CUCs (R$ 95,2) por um "recorrido" de dia inteiro em Havana. "O meu carro faz parte da história", orgulha-se Zoe. Apesar de ter um veículo "baleado", Felix atrai clientes em hotéis e recebe muitas gorjetas de estrangeiros, todas em CUC. Para complementar a renda, sua mulher vendia roupas importadas, mas o governo cassou a licença para essa atividade.

"As coisas já melhoraram, se formos comparar a situação de hoje com a dos anos 90, muito duros para nós. Mesmo assim, não há dinheiro na economia. Com mais de 50 anos de bloqueio dos EUA, a infraestrutura se fraturou. O desafio, agora, é sair da crise sem se converter em sociedade de consumo, sem especular", resume Félix.

Na caderneta de abastecimento da família, as cotas de consumo de produtos básicos, como arroz, feijão e leite, são registradas em folhas amarrotadas, preenchidas à tinta. A compra desses itens, subsidiados pelo governo, é feita em pesos cubanos. Quando acaba a cota mensal, Félix e Soley têm de se virar. "Aí a gente compra por fora", conta ela. Para tanto, é preciso desembolsar CUC.

Uma família, em Cuba, gasta de 60% a 70% de sua renda com alimentação, de acordo com levantamento feito pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU. Os dados também indicam que 80% dos alimentos consumidos no país são importados. Em Havana, o salário médio do trabalhador é de 360 pesos cubanos (US$ 15 ou R$ 35,7) por mês. Um médico recebe, no máximo, 840 CUP (US$ 35 ou R$ 83,3) mensais.

A professora de História María Isabel aposta nas reformas de Raúl. Depois de se aposentar, em julho, ela abriu a Peluquería Mary, dentro de casa, na periferia. O lavatório do salão de cabeleireiro fica no quintal, mas penteados e unhas são feitos na sala de jantar, com vista para a cristaleira cheia de bibelôs.

‘Avenida Brasil’. Uma TV exibe as trapaças de Carminha em Avenida Brasil, novela que anima a freguesia de María Isabel. "As pessoas aqui não têm muito dinheiro, mas se divertem", diz ela. Para a professora, tudo vai melhorar com a unificação da moeda, até mesmo os preços do xampu e da queratina "made in Brazil", usados nas clientes. "O produto brasileiro alisa mais o cabelo afro."

Perto dali, Alex comemora o aumento das vendas de material de construção no depósito onde trabalha. "Antes de outubro, a gente vendia 2 mil sacos de cimento por mês. Hoje são 7 mil", afirma. No depósito do bairro Buena Vista, na periferia de Havana, Alex diz que o governo tem oferecido crédito bancário para que moradores reformem suas casas. "Vendemos mais cimento, blocos de concreto, areia, janelas", diz ele, que defende a "atualização do socialismo" promovida por Raúl. "Aqui não tem enriquecimento ilícito", insistiu.

Revoltado, um funcionário do depósito, que carregava cimento, interrompeu a conversa e mostrou as mãos calejadas. "Não é nada disso que falam na TV, não. Nós trabalhamos muito e ganhamos pouco. O preço da roupa é muito alto. Quase não tenho dinheiro para comer", afirmou o homem, que não quis dizer o nome. "Tenho muito medo."

Questionado se ainda acreditava em dias melhores, ele abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Depois, respondeu baixinho: "Não tenho filhos, nem quero. Vivo só. Mas vivo porque tenho esperança."

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